quarta-feira, 17 de abril de 2019

Semana Santa 2019: a Igreja arde



«Tu ouviste as palavras vindas do meio do fogo» (Dt 4, 36). Porquê que o incêndio da Catedral de Notre-Dame suscitou uma enorme consternação no mundo? Porque, para além do valor intrínseco do monumento, Notre-Dame é um símbolo. Todos o escreveram: um símbolo do cristianismo, símbolo da consciência do Ocidente, símbolo de um património cultural colectivo, símbolo da identidade europeia, símbolo da história nacional francesa.     

Vivemos num mundo que perdeu o valor da lógica, mas a força dos símbolos permanece extraordinária, porque são os símbolos que o sistema massmediatico usa para criar emoções indevidas, que muitas vezes substituem o papel da razão. De facto, existem duas maneiras para alcançar a verdade, uma através do raciocínio, a outra através dos símbolos. Mas as duas maneiras são complementares, não alternativas. Jesus, por exemplo, nas suas parábolas, usa a linguagem dos símbolos, mas também usa uma lógica rigorosa.                                          

A linguagem racional baseia-se no princípio da não-contradição, enquanto a linguagem simbólica é baseada em imagens e sinais visíveis, que se referem a uma realidade invisível. O símbolo torna imediatamente compreensível o que é velado aos olhos da razão. A lógica ajuda a decifrar a linguagem dos símbolos. Tudo o que cai sob os nossos sentidos tem um significado e leva-nos ao invisível, de que é reflexo e imitação. 

No caso do incêndio de Notre-Dame, todos sentiram o valor simbólico da catedral ferida, mas poucos tentaram entender o significado simbólico do que aconteceu. Notre-Dame, como todas as catedrais, representa, no seu impulso arquitectónico em direcção ao Céu, a Igreja Católica.                 

Como não ver, na fumaça e nas chamas que a envolveram no dia 15 de Abril, a imagem da fumaça e das chamas que, hoje, envolvem a Igreja de Cristo? Já em 1972, Paulo VI falava da “fumaça de Satanás” penetrada no templo de Deus. Hoje, esta fumaça é um incêndio que deflagra na Igreja, a ponto de carbonizar os seus vértices. Não será possível ver no colapso da flèche, a alta torre de Notre-Dame, o precipício da extremidade da Igreja?       

Neste momento, outra imagem simbólica é sobreposta àquela do fogo de Notre-Dame: a cena do Papa Francisco, Vigário de Cristo, que beija os pés de três líderes muçulmanos do Sudão, pedindo-lhes que «o fogo da guerra se apague de uma vez para sempre». Isto aconteceu no dia 11 de Abril, no final do retiro espiritual no Vaticano, concebido pelo arcebispo cismático de Canterbury, Justin Welby. Imediatamente depois, no primeiro dia da Semana Santa, a catedral francesa, a mais famosa e visitada do mundo depois de São Pedro, foi devorada pelas chamas.                   

No mundo dos fiéis à Tradição, há uma discussão, às vezes animada, para estabelecer se esta ou aquela expressão verbal do Papa Francisco pode ser considerada herética. Mas esta investigação teológica e canónica corre o risco de permanecer abstracta e ignorar a linguagem dos gestos, que expressa directamente uma realidade que qualquer baptizado que tenha conservado o seu sensus fidei pode facilmente discernir.                       

Muito poucas vezes a Igreja foi humilhada como pelo gesto do Papa Francisco prostrado aos pés de líderes políticos e religiosos de outras religiões. De facto, Francisco é o Vigário na Terra do Rei dos Reis, a quem todos devem prestar homenagem. Não pode haver qualquer paz verdadeira fora da Verdade anunciada por aquele que é o único Príncipe da Paz, Nosso Senhor Jesus Cristo.                     

O seu domínio abrange todos os homens, recorda Pio XI na encíclica Quas primas, de 11 de Dezembro de 1925, recordando as palavras do seu predecessor Leão XIII: «O império de Cristo não se estende apenas aos povos católicos, ou àqueles que, regenerados na pia baptismal, pertencem, estritamente falando, à Igreja, embora opiniões erróneas os afastem ou a dissidência os divida da caridade; mas também envolve aqueles que são desprovidos de fé cristã, de modo que toda a humanidade está sob o poder de Jesus Cristo» (Enc. Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899). «E se o reino de Cristo, que por direito abraça todos os homens, os abraçou de facto, - acrescenta Pio XI - porque deveríamos desesperar daquela paz que o Rei pacífico trouxe à terra, aquele Rei que dizemos que vem para reconciliar todas as coisas, que não vem para ser servido, mas para servir os outros”»?                      

A 11 de Abril, Jesus Cristo foi humilhado pelo seu Vigário, com um acto igualmente simbólico do incêndio de 15 de Abril. Na tragédia do incêndio, a Divina Providência não permitiu que fosse destruída a Sagrada Coroa de Espinhos, resgatada a grande custo por São Luís, que, em 1239, a recebeu em Paris, vestindo apenas uma túnica de linho e, descalço, a levou em procissão. Para guardar esta relíquia, o soberano fez, então, construir a Sainte Chapelle, uma extraordinária jóia da arte gótica. Devemos ser gratos ao capelão do corpo de bombeiros de Paris, padre Fournier, que, desafiando o perigo, conseguiu resgatar as Sagradas Espécies e a Coroa de Espinhos.                             

Jesus, depois de açoitado, insultado, manchado de cuspe, foi forçado a usar um manto de púrpura, foi-lhe colocada na cabeça uma coroa de espinhos, e, na sua mão direita, em vez de um ceptro, uma cana para simbolizar que o seu era um falso reino. Então, os seus carrascos ajoelharam-se diante dele e adoraram-no em escárnio, dizendo-lhe Ave Rex Judaeorum (Mt 27, 28-29). O Senhor saiu à vista de todos, vestido de púrpura, coroado de espinhos: portans coronam spineam e purpureum vestimentum (Jo 19, 5) e Pilatos mostrou-o ao povo, com as palavras: Ecce Homo: aqui está o Homem. O prefeito do Pretório falava inconscientemente através do Espírito Santo, que disse: parece apenas um Homem, mas é Filho de Deus, o Messias prometido pela lei, o Rei dos homens e do Anjos, o Redentor da humanidade. Da mesma forma, na época da Paixão que estamos a viver, parecem ressoar as palavras Ecce Ecclesia: eis a Esposa de Cristo, a única guardiã dos meios da Salvação, a Rainha da Paz, a Mestra dos homens, o Reino cujas chaves foram confiadas a Pedro. Eis a Santa Igreja, ferida, desfigurada, imunda. Como é possível que seja tratada desta maneira?                                  

Movidos pela dor e pela indignação, adoramos a Igreja, dirigindo em particular a nossa veneração à adorável relíquia da Coroa de Espinhos, para reparar os ultrajes contra a Realeza de Cristo que foram renovados nos últimos dias. Nas catedrais medievais, como em Notre-Dame, os demónios foram retractados sob a forma de esculturas deformadas e grotescas fora da Igreja, dentro da qual os espíritos malignos não podem entrar.      

Quando dentro do Templo de Deus o brilho do fogo substitui a luz puríssima das janelas, significa que o inferno penetrou nele. Inferno de fogo em Notre-Dame, lê-se na primeira página do jornal alemão Bild de 16 de Abril. As palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort no apelo da sua Oração abrasada ressoam profeticamente. «Há fogo, há fogo, há fogo! Socorro, socorro, socorro! Há fogo na casa de Deus, há fogo nas almas, há fogo até no santuário».              

Mas, entretanto, ressoa de forma vibrante nos nossos corações, nesta véspera de Páscoa, a invocação final do Santo: «Exsurge, Domine, quare abdormis? Erguei-Vos, Senhor! Porque pareceis dormir? Erguei-Vos em toda a vossa omnipotência, em toda a vossa misericórdia e justiça, para formardes para Vós uma companhia selecta de guardas que velem a vossa casa, defendam a vossa glória e salvem as vossas almas, para que haja um só aprisco e um só pastor, e que todos Vos rendam glória no vosso templo: Et in templo eius omnes dicent gloriam. Amen”.                       

Roberto de Mattei      
Uma tradução de Dies Iræ.

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