sexta-feira, 19 de abril de 2019

Missa comemorativa da Ceia do Senhor






Santa Missa do Memorial da Ceia, em Quinta-feira Santa, no Convento de São Tomás de Aquino, da Fraternidade de São Vicente Ferrer, em Chémeré-le-Roi, França.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

João Paulo II e a Santíssima Eucaristia



Chegou a hora do Seu passar. E esta hora perdura através dos séculos e das gerações. O Apóstolo escreve: “Sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha” (1 Cor 11, 26). Se hoje recordamos de modo especial a hora da última Ceia, fazemo-lo também porque esta hora dura incessantemente e enche todas as horas da história da Igreja e do mundo. Desde que chegou, uma vez por todas, a hora de Cristo, Cordeiro de Deus, a hora do Seu passar deste mundo para o Pai, essa hora dura e enche todas as horas até ao fim do mundo, pois Cristo “tendo amado os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles” (Jo 13, 1). Portanto, em cada hora da história renova-se e realiza-se de novo o Seu passar deste mundo para o Pai, nos Seus membros que passam n’Ele, com Ele e por Ele, deste mundo para o Pai. A Eucaristia é o sacramento do nosso passar deste mundo para o Pai.           

Papa João Paulo II, in Homilia na Santa Missa in Coena Domini (1981)

Meditar a Sagrada Escritura na Semana Santa – Quinta-feira Santa



A liturgia dos três últimos dias da Semana Santa assume um carácter emocionante. Por meio dos ofícios litúrgicos, que são dos mais belos do ano, a Igreja recorda os feitos que assinalaram os últimos dias da vida do Salvador e convida-nos a celebrar com ela o augusto mistério da nossa Redenção. Celebração maravilhosa em que a Paixão se nos apresenta misteriosamente actual para renovar a nossa vida nas próprias fontes de que brotou. 

A Quinta-feira Santa é consagrada à instituição da Eucaristia e do sacerdócio. Foi na véspera da sua morte que Jesus, o Sumo Sacerdote da Nova Lei, celebrando a Páscoa com os seus discípulos, transformou a refeição ritual dos Judeus numa refeição mais sagrada ainda, em que Ele próprio se deu em alimento daqueles cujo resgate ia operar morrendo na cruz.  

No mesmo dia, o bispo procede à bênção dos Santos Óleos, pelo que mais evidente se torna que os Sacramentos têm a sua própria origem em Cristo, representado agora pelo bispo, e que a sua fecundidade é toda haurida no mistério pascal.     

É hoje ainda, durante a missa vespertina, que se desenrola a cerimónia do mandato ou lava-pés, rememoração comovedora do gesto de humilde caridade com que Jesus assinalou o «mandamento novo» do amor fraterno.

EVANGELHO segundo São Marcos (Mc 6, 7-13) – 1.ª Missa, Missa dos Santos Óleos                       
Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles». Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.            
      
EVANGELHO segundo São João (Jo 13, 1-15) – 2.ª Missa, Missa do Memorial da Ceia           
Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo. O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o entregar. Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?». Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois». Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!». Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo». Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!». Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos». Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse: ‘Nem todos estais limpos’. Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Meditar a Sagrada Escritura na Semana Santa – Quarta-feira Santa



Sucedem-se umas às outras, nesta semana, as narrações da Paixão do Senhor. Neste dia é a de São Lucas. As duas leituras do Antigo Testamento [só apresentaremos a Epístola] são tiradas do profeta Isaías e ambas se referem à missão redentora do Messias. Posta em confronto com as profecias que a anunciavam, a Paixão de Jesus aparece-nos claramente como a realização dos desígnios eternos de Deus a respeito da salvação do mundo. Nesta Missa, em que quase todos os textos falam dos sofrimentos do Salvador, o pensamento dominante é o da Redenção por Ele operada: «Quisestes, ó Deus, que o vosso Filho sofresse o patíbulo da cruz. Fazei que alcancemos a graça da ressurreição» (2.ª colecta).          

EPÍSTOLA extraída do profeta Isaías (Is 53, 1-12)                      
Quem acreditou no nosso anúncio? A quem foi revelado o braço do Senhor? O servo cresceu diante do Se­nhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado. Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um le­proso, ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa dos nos­sos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu so­bre ele, fomos curados pelas suas chagas. Todos nós andávamos desgarra­dos como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. Sem defesa, nem justiça, leva­ram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido. Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfei­to­res, embora não tenha cometido cri­me algum, nem praticado qualquer fraude. Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sa­crifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime de­les. Por isso, ser-lhe-á dada uma mul­­tidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos, e sofreu pelos culpados.  

PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO segundo São Lucas (Lc 22, 39-71; 23, 1-53)          
No monte das Oliveiras. Oração e agonia.  
Saiu então e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. Quando chegou ao local, disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação». Depois afastou-se deles, à distância de um tiro de pedra, aproximadamente; e, pondo-se de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua». Então, vindo do Céu, apareceu-lhe um anjo que o confortava. Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. Depois de orar, levantou-se e foi ter com os discípulos, encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: «Porque dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação».

Prisão de Jesus     
Ainda Ele estava a falar quando surgiu uma multidão de gente. Um dos Doze, o chamado Judas, caminhava à frente e aproximou-se de Jesus para o beijar. Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?». Vendo o que ia suceder, aqueles que o cercavam perguntaram-lhe: «Senhor, ferimo-los à espada?». E um deles feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio, dizendo: «Basta, deixai-os». E, tocando na orelha do servo, curou-o. Depois, disse aos que tinham vindo contra Ele, aos sumos sacerdotes, aos oficiais do templo e aos anciãos: «Vós saístes com espadas e varapaus, como se fôsseis ao encontro de um salteador! Estando Eu todos os dias convosco no templo, não me deitastes as mãos; mas esta é a vossa hora e o domínio das trevas».   

Negação de Pedro.          
Apoderando-se, então, de Jesus, levaram-no e introduziram-no em casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia de longe. Tendo acendido uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se e Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitando-o, disse: «Este também estava com Ele». Mas Pedro negou-o, dizendo: «Não o conheço, mulher». Pouco depois, disse outro, ao vê-lo: «Tu também és dos tais». Mas Pedro disse: «Homem, não sou». Cerca de uma hora mais tarde, um outro afirmou com insistência: «Com certeza este estava com Ele; além disso, é galileu». Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes». E, no mesmo instante, estando ele ainda a falar, cantou um galo. Voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Hoje, antes de o galo cantar, irás negar-me três vezes». E, vindo para fora, chorou amargamente. Entretanto, os que guardavam Jesus troçavam dele e maltratavam-no. Cobriam-lhe o rosto e perguntavam-lhe: «Adivinha! Quem te bateu?». E proferiam muitos outros insultos contra Ele.          

Perante o Sinédrio. Jesus entregue a Pilatos e a Herodes.        
Quando amanheceu, reuniu-se o Conselho dos anciãos do povo, sumos sacerdotes e doutores da Lei, que o levaram ao seu tribunal. Disseram-lhe: «Declara-nos se Tu és o Messias». Ele respondeu-lhes: «Se vo-lo disser, não me acreditareis e, se vos perguntar, não respondereis. Mas doravante, o Filho do Homem vai sentar-se à direita de Deus todo-poderoso». Disseram todos: «Tu és, então, o Filho de Deus?». Ele respondeu-lhes: «Vós o dizeis; Eu sou». Então, exclamaram: «Que necessidade temos já de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca». Levantando-se todos, levaram-no a Pilatos e começaram a acusá-lo, nestes termos: «Encontrámos este homem a sublevar o povo, a impedir que se pagasse tributo a César e a dizer-se Ele próprio o Messias-Rei». Pilatos interrogou-o: «Tu és o rei dos judeus?». Jesus respondeu: «Tu o dizes». Pilatos disse, então, aos sumos sacerdotes e à multidão: «Nada encontro de culpável neste homem». Mas eles insistiram, dizendo: «Ele amotina o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia até aqui». Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu; e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, que também se encontrava em Jerusalém nesses dias. Ao ver Jesus, Herodes ficou extremamente satisfeito, pois havia bastante tempo que o queria ver, devido ao que ouvia dizer dele, esperando que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu. Os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, que lá estavam, acusavam-no com veemência. Herodes, com os seus oficiais, tratou-o com desprezo e, por troça, mandou-o cobrir com uma capa vistosa, enviando-o de novo a Pilatos. Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois eram inimigos um do outro. Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes: «Trouxestes este homem à minha presença como se andasse a revoltar o povo. Interroguei-o diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais. Herodes tão-pouco, visto que no-lo mandou de novo. Como vedes, Ele nada praticou que mereça a morte. Vou, portanto, libertá-lo, depois de o castigar». Ora, em cada festa, Pilatos era obrigado a soltar-lhes um preso. E todos se puseram a gritar: «A esse mata-o e solta-nos Barrabás!». Este último fora metido na prisão por causa de uma insurreição desencadeada na cidade, e por homicídio. De novo, Pilatos dirigiu-lhes a palavra, querendo libertar Jesus. Mas eles gritavam: «Crucifica-o! Crucifica-o!». Pilatos disse-lhes pela terceira vez: «Que mal fez Ele, então? Nada encontrei nele que mereça a morte. Por isso, vou libertá-lo, depois de o castigar». Mas eles insistiam em altos brados, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de violência. Então, Pilatos decidiu que se fizesse o que eles pediam. Libertou o que fora preso por sedição e homicídio, que eles reclamavam, e entregou-lhes Jesus para o que eles queriam.

A caminho do Calvário. Crucifixão.  
Quando o iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de Jesus. Seguiam Jesus uma grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; pois virão dias em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram’. Hão-de, então, dizer aos montes: ‘Caí sobre nós!’. E às colinas: ‘Cobri-nos!’. Porque, se tratam assim a árvore verde, o que não acontecerá à seca?». E levavam também dois malfeitores, para serem executados com Ele. Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem». Depois, deitaram sortes para dividirem entre si as suas vestes. O povo permanecia ali, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: «Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Os soldados também troçavam dele. Aproximando-se para lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!». E por cima dele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus». Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino». Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso».     

Morte de Jesus.     
Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde. O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou. Ao ver o que se passava, o centurião deu glória a Deus, dizendo: «Verdadeiramente, este homem era justo!». E toda a multidão que se tinha aglomerado para este espectáculo, vendo o que acontecera, regressava batendo no peito. Todos os seus conhecidos e as mulheres que o tinham acompanhado desde a Galileia mantinham-se à distância, observando estas coisas.     

Sepultura de Jesus.         
Um membro do Conselho, chamado José, homem recto e justo, não tinha concordado com a decisão nem com o procedimento dos outros. Era natural de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava o Reino de Deus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Descendo-o da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro talhado na rocha, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.      

Semana Santa 2019: a Igreja arde



«Tu ouviste as palavras vindas do meio do fogo» (Dt 4, 36). Porquê que o incêndio da Catedral de Notre-Dame suscitou uma enorme consternação no mundo? Porque, para além do valor intrínseco do monumento, Notre-Dame é um símbolo. Todos o escreveram: um símbolo do cristianismo, símbolo da consciência do Ocidente, símbolo de um património cultural colectivo, símbolo da identidade europeia, símbolo da história nacional francesa.     

Vivemos num mundo que perdeu o valor da lógica, mas a força dos símbolos permanece extraordinária, porque são os símbolos que o sistema massmediatico usa para criar emoções indevidas, que muitas vezes substituem o papel da razão. De facto, existem duas maneiras para alcançar a verdade, uma através do raciocínio, a outra através dos símbolos. Mas as duas maneiras são complementares, não alternativas. Jesus, por exemplo, nas suas parábolas, usa a linguagem dos símbolos, mas também usa uma lógica rigorosa.                                          

A linguagem racional baseia-se no princípio da não-contradição, enquanto a linguagem simbólica é baseada em imagens e sinais visíveis, que se referem a uma realidade invisível. O símbolo torna imediatamente compreensível o que é velado aos olhos da razão. A lógica ajuda a decifrar a linguagem dos símbolos. Tudo o que cai sob os nossos sentidos tem um significado e leva-nos ao invisível, de que é reflexo e imitação. 

No caso do incêndio de Notre-Dame, todos sentiram o valor simbólico da catedral ferida, mas poucos tentaram entender o significado simbólico do que aconteceu. Notre-Dame, como todas as catedrais, representa, no seu impulso arquitectónico em direcção ao Céu, a Igreja Católica.                 

Como não ver, na fumaça e nas chamas que a envolveram no dia 15 de Abril, a imagem da fumaça e das chamas que, hoje, envolvem a Igreja de Cristo? Já em 1972, Paulo VI falava da “fumaça de Satanás” penetrada no templo de Deus. Hoje, esta fumaça é um incêndio que deflagra na Igreja, a ponto de carbonizar os seus vértices. Não será possível ver no colapso da flèche, a alta torre de Notre-Dame, o precipício da extremidade da Igreja?       

Neste momento, outra imagem simbólica é sobreposta àquela do fogo de Notre-Dame: a cena do Papa Francisco, Vigário de Cristo, que beija os pés de três líderes muçulmanos do Sudão, pedindo-lhes que «o fogo da guerra se apague de uma vez para sempre». Isto aconteceu no dia 11 de Abril, no final do retiro espiritual no Vaticano, concebido pelo arcebispo cismático de Canterbury, Justin Welby. Imediatamente depois, no primeiro dia da Semana Santa, a catedral francesa, a mais famosa e visitada do mundo depois de São Pedro, foi devorada pelas chamas.                   

No mundo dos fiéis à Tradição, há uma discussão, às vezes animada, para estabelecer se esta ou aquela expressão verbal do Papa Francisco pode ser considerada herética. Mas esta investigação teológica e canónica corre o risco de permanecer abstracta e ignorar a linguagem dos gestos, que expressa directamente uma realidade que qualquer baptizado que tenha conservado o seu sensus fidei pode facilmente discernir.                       

Muito poucas vezes a Igreja foi humilhada como pelo gesto do Papa Francisco prostrado aos pés de líderes políticos e religiosos de outras religiões. De facto, Francisco é o Vigário na Terra do Rei dos Reis, a quem todos devem prestar homenagem. Não pode haver qualquer paz verdadeira fora da Verdade anunciada por aquele que é o único Príncipe da Paz, Nosso Senhor Jesus Cristo.                     

O seu domínio abrange todos os homens, recorda Pio XI na encíclica Quas primas, de 11 de Dezembro de 1925, recordando as palavras do seu predecessor Leão XIII: «O império de Cristo não se estende apenas aos povos católicos, ou àqueles que, regenerados na pia baptismal, pertencem, estritamente falando, à Igreja, embora opiniões erróneas os afastem ou a dissidência os divida da caridade; mas também envolve aqueles que são desprovidos de fé cristã, de modo que toda a humanidade está sob o poder de Jesus Cristo» (Enc. Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899). «E se o reino de Cristo, que por direito abraça todos os homens, os abraçou de facto, - acrescenta Pio XI - porque deveríamos desesperar daquela paz que o Rei pacífico trouxe à terra, aquele Rei que dizemos que vem para reconciliar todas as coisas, que não vem para ser servido, mas para servir os outros”»?                      

A 11 de Abril, Jesus Cristo foi humilhado pelo seu Vigário, com um acto igualmente simbólico do incêndio de 15 de Abril. Na tragédia do incêndio, a Divina Providência não permitiu que fosse destruída a Sagrada Coroa de Espinhos, resgatada a grande custo por São Luís, que, em 1239, a recebeu em Paris, vestindo apenas uma túnica de linho e, descalço, a levou em procissão. Para guardar esta relíquia, o soberano fez, então, construir a Sainte Chapelle, uma extraordinária jóia da arte gótica. Devemos ser gratos ao capelão do corpo de bombeiros de Paris, padre Fournier, que, desafiando o perigo, conseguiu resgatar as Sagradas Espécies e a Coroa de Espinhos.                             

Jesus, depois de açoitado, insultado, manchado de cuspe, foi forçado a usar um manto de púrpura, foi-lhe colocada na cabeça uma coroa de espinhos, e, na sua mão direita, em vez de um ceptro, uma cana para simbolizar que o seu era um falso reino. Então, os seus carrascos ajoelharam-se diante dele e adoraram-no em escárnio, dizendo-lhe Ave Rex Judaeorum (Mt 27, 28-29). O Senhor saiu à vista de todos, vestido de púrpura, coroado de espinhos: portans coronam spineam e purpureum vestimentum (Jo 19, 5) e Pilatos mostrou-o ao povo, com as palavras: Ecce Homo: aqui está o Homem. O prefeito do Pretório falava inconscientemente através do Espírito Santo, que disse: parece apenas um Homem, mas é Filho de Deus, o Messias prometido pela lei, o Rei dos homens e do Anjos, o Redentor da humanidade. Da mesma forma, na época da Paixão que estamos a viver, parecem ressoar as palavras Ecce Ecclesia: eis a Esposa de Cristo, a única guardiã dos meios da Salvação, a Rainha da Paz, a Mestra dos homens, o Reino cujas chaves foram confiadas a Pedro. Eis a Santa Igreja, ferida, desfigurada, imunda. Como é possível que seja tratada desta maneira?                                  

Movidos pela dor e pela indignação, adoramos a Igreja, dirigindo em particular a nossa veneração à adorável relíquia da Coroa de Espinhos, para reparar os ultrajes contra a Realeza de Cristo que foram renovados nos últimos dias. Nas catedrais medievais, como em Notre-Dame, os demónios foram retractados sob a forma de esculturas deformadas e grotescas fora da Igreja, dentro da qual os espíritos malignos não podem entrar.      

Quando dentro do Templo de Deus o brilho do fogo substitui a luz puríssima das janelas, significa que o inferno penetrou nele. Inferno de fogo em Notre-Dame, lê-se na primeira página do jornal alemão Bild de 16 de Abril. As palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort no apelo da sua Oração abrasada ressoam profeticamente. «Há fogo, há fogo, há fogo! Socorro, socorro, socorro! Há fogo na casa de Deus, há fogo nas almas, há fogo até no santuário».              

Mas, entretanto, ressoa de forma vibrante nos nossos corações, nesta véspera de Páscoa, a invocação final do Santo: «Exsurge, Domine, quare abdormis? Erguei-Vos, Senhor! Porque pareceis dormir? Erguei-Vos em toda a vossa omnipotência, em toda a vossa misericórdia e justiça, para formardes para Vós uma companhia selecta de guardas que velem a vossa casa, defendam a vossa glória e salvem as vossas almas, para que haja um só aprisco e um só pastor, e que todos Vos rendam glória no vosso templo: Et in templo eius omnes dicent gloriam. Amen”.                       

Roberto de Mattei      
Uma tradução de Dies Iræ.

O Cardeal Robert Sarah reage ao incêndio na Catedral de Notre-Dame



Têm sido inúmeras as reacções face ao trágico incêndio que, na passada segunda-feira, atingiu, em condições misteriosas, a Catedral de Notre-Dame de Paris, sendo de destacar a de Sua Eminência o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, originalmente redigida em francês: «Como não ficar perturbado com a emoção, a dignidade, a unidade de uma nação em torno da sua catedral, Nossa Senhora de Paris? Depois das lágrimas, virá a alegria porque Maria será sempre a mais bela. Depois da tristeza, virá a esperança porque Maria será sempre a mais forte». Apraz-nos acompanhar esta publicação com um vídeo que ilustra muito bem que a resistência católica francesa está viva e bem viva! 

terça-feira, 16 de abril de 2019

Meditar a Sagrada Escritura na Semana Santa – Terça-feira Santa



A salvação, a vida e ressurreição dos cristãos encontram-se na cruz do Salvador, como o lembra o intróito, num canto cheio de alegria, que abrirá, igualmente, a missa de Quinta-feira Santa. Nas orações, o mesmo pensamento: a celebração dos mistérios da nossa Redenção deve alcançar-nos perdão e cura, renovação da vida sobrenatural e será penhor da eternidade. A epístola, tirada de Jeremias, anuncia a imolação do Cordeiro e sublinha a inocência de Jesus e a sua serenidade, posta em relevo igualmente na narração da Paixão segundo São Marcos.    

EPÍSTOLA extraída do profeta Jeremias (Jr 11, 18-20)           
O Senhor instruiu-me e eu entendi. E então vi com clareza o seu proceder para comigo. E eu, como manso cordeiro conduzido ao matadouro, ignorava as maquinações tramadas contra mim, dizendo: «Destruamos a árvore no seu vigor; arranquemo-la da terra dos vivos, que o seu nome caia no esquecimento». Mas o Senhor do universo, justo juiz, sonda os rins e o coração. Que eu seja testemunha da tua vingança sobre eles, pois a ti confio a minha causa.        

PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO segundo São Marcos (Mc 14, 32-72; 15, 1-46)
Agonia e oração.  
Chegaram a uma propriedade chamada Getsémani, e Jesus disse aos discípulos: «Ficai aqui enquanto Eu vou ora». Tomando consigo Pedro, Tiago e João, começou a sentir pavor e a angustiar-se. E disse-lhes: «A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai». Adiantando-se um pouco, caiu por terra e orou para que, se possível, passasse dele aquela hora. E dizia: «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres». Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Simão, dormes? Nem uma hora pudeste vigiar! Vigiai e orai, para não cederdes à tentação; o espírito está cheio de ardor, mas a carne é débil». Retirou-se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. E, voltando de novo, encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados; e não sabiam que responder-lhe. Voltou pela terceira vez e disse-lhes: «Dormi agora e descansai! Pois bem, chegou a hora. Eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos! Vamos! Eis que chega o que me vai entregar».                      

No Getsémani. Prisão de Jesus.          
E logo, ainda Ele estava a falar, chegou Judas, um dos Doze, e, com ele, muito povo com espadas e varapaus, da parte dos sumos sacerdotes, dos doutores da Lei e dos anciãos. Ora, o que o ia entregar tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar é esse mesmo; prendei-o e levai-o bem guardado». Mal chegou, aproximou-se de Jesus, dizendo: «Mestre!»; e beijou-o. Os outros deitaram-lhe as mãos e prenderam-no. Então, um dos que estavam presentes, puxando da espada, feriu o criado do Sumo Sacerdote e cortou-lhe uma orelha. E tomando a palavra, Jesus disse-lhes: «Como se eu fosse um salteador, viestes com espadas e varapaus para me prender! Estava todos os dias junto de vós, no templo, a ensinar, e não me prendestes; mas é para se cumprirem as Escrituras». Então, os discípulos, deixando-o, fugiram todos. Um certo jovem, que o seguia envolto apenas num lençol, foi preso; mas ele, deixando o lençol, fugiu nu.    

Jesus conduzido à presença do Sumo Sacerdote. 
Conduziram Jesus a casa do Sumo Sacerdote, onde se juntaram todos os sumos sacerdotes, os anciãos e os doutores da Lei. E Pedro tinha-o seguido de longe até dentro do palácio do Sumo Sacerdote, onde se sentou com os guardas a aquecer-se ao lume. Ora os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus a fim de lhe dar a morte, mas não o encontravam; de facto, muitos testemunharam falsamente contra Ele, mas os testemunhos não eram coincidentes. E alguns ergueram-se e proferiram contra Ele este falso testemunho: «Ouvimo-lo dizer: ‘Demolirei este templo construído pela mão dos homens e, em três dias, edificarei outro que não será feito pela mão dos homens’». Mas nem assim o depoimento deles concordava. Então, o Sumo Sacerdote ergueu-se no meio da assembleia e interrogou Jesus: «Não respondes nada ao que estes testemunham contra ti?». Mas Ele continuava em silêncio e nada respondia. O Sumo Sacerdote voltou a interrogá-lo: «És Tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?». Jesus respondeu: «Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vir sobre as nuvens do céu». O Sumo Sacerdote rasgou, então, as suas vestes e disse: «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfémia! Que vos parece?». E todos sentenciavam que Ele era réu de morte. Depois, alguns começaram a cuspir-lhe, a cobrir-lhe o rosto com um véu e, batendo-lhe, a dizer: «Profetiza!». E os guardas davam-lhe bofetadas.

Negação de Pedro.          
Estando Pedro em baixo, no pátio, chegou uma das criadas do Sumo Sacerdote e, vendo Pedro a aquecer-se, fixou nele o olhar e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o Nazareno». Mas ele negou, dizendo: «Não sei nem entendo o que dizes». Depois, saiu para o átrio e um galo cantou. A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos que ali estavam: «Este é um deles». Mas ele negou outra vez. Pouco depois, os presentes disseram de novo a Pedro: «Com certeza que és um deles, pois também és galileu». Ele começou, então, a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço esse homem de quem falais!». E logo cantou o galo pela segunda vez. Pedro recordou-se, então, das palavras de Jesus: «Antes de o galo cantar duas vezes, tu me terás negado três vezes». E desatou a chorar.            

Jesus diante de Pilatos.  
Logo de manhã, os sumos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os doutores da Lei e todo o Sinédrio; e, tendo manietado Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos. Perguntou-lhe Pilatos: «És Tu o rei dos Judeus?». Jesus respondeu-lhe: «Tu o dizes». Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos interrogou-o de novo, dizendo: «Não respondes nada? Vê de quantas coisas és acusado!». Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos estava estupefacto. Ora, em cada festa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso que eles pedissem. Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos que tinham cometido um assassínio durante a revolta. A multidão chegou e começou a pedir-lhe o que ele costumava conceder. Pilatos, respondendo, disse: «Quereis que vos solte o rei dos judeus?». Porque sabia que era por inveja que os sumos sacerdotes o tinham entregado. Os sumos sacerdotes, porém, instigaram a multidão a pedir que lhes soltasse, de preferência, Barrabás. Tomando novamente a palavra, Pilatos disse-lhes: «Então que quereis que faça daquele a quem chamais rei dos judeus?». Eles gritaram novamente: «Crucifica-o!». Pilatos insistiu: «Que fez Ele de mal?». Mas eles gritaram ainda mais: «Crucifica-o!». Pilatos, desejando agradar à multidão, soltou-lhes Barrabás; e, depois de mandar flagelar Jesus, entregou-o para ser crucificado.         

Ultrajes e coroação de espinhos.        
Os soldados levaram-no para dentro do pátio, isto é, para o pretório, e convocaram toda a coorte. Revestiram-no de um manto de púrpura e puseram-lhe uma coroa de espinhos, que tinham entretecido. Depois, começaram a saudá-lo: «Salve! Ó rei dos judeus!». Batiam-lhe na cabeça com uma cana, cuspiam sobre Ele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto de púrpura e revestiram-no das suas vestes. Levaram-no, então, para o crucificar.              

A caminho do Calvário. 
Para lhe levar a cruz, requisitaram um homem que passava por ali ao regressar dos campos, um tal Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo. E conduziram-no ao lugar do Gólgota, que quer dizer ‘lugar do Crânio’. Queriam dar-lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não quis beber.          

Crucifixão.
Depois, crucificaram-no e repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para ver o que cabia a cada um. Eram umas nove horas da manhã, quando o crucificaram. Na inscrição com a condenação, lia-se: «O rei dos judeus». Com Ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita e o outro à sua esquerda. Deste modo, cumpriu-se a passagem da Escritura que diz: Foi contado entre os malfeitores. Os que passavam injuriavam-no e, abanando a cabeça, diziam: «Olha o que destrói o templo e o reconstrói em três dias! Salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!». Da mesma forma, os sumos sacerdotes e os doutores da Lei troçavam dele entre si: «Salvou os outros mas não pode salvar-se a si mesmo! O Messias, o Rei de Israel! Desça agora da cruz para nós vermos e acreditarmos!». Até os que estavam crucificados com Ele o injuriavam.       

Últimos instantes e morte de Jesus.   
Ao chegar o meio-dia, fez-se trevas por toda a terra, até às três da tarde. E às três da tarde, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, Eloí, lemá sabachtáni?», que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Ao ouvi-lo, alguns que estavam ali disseram: «Está a chamar por Elias!». Um deles correu a embeber uma esponja em vinagre, pô-la numa cana e deu-lhe de beber, dizendo: «Esperemos, a ver se Elias vem tirá-lo dali». Mas Jesus, com um grito forte, expirou.     

Depois da morte de Jesus.        
E o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. O centurião que estava em frente dele, ao vê-lo expirar daquela maneira, disse: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!». Também ali estavam algumas mulheres a contemplar de longe; entre elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé, que o seguiam e serviam quando Ele estava na Galileia; e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém.    

Sepultura.
Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia, respeitável membro do Conselho que também esperava o Reino de Deus, foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos espantou-se por Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se já tinha morrido há muito. Informado pelo centurião, Pilatos ordenou que o corpo fosse entregue a José. Este, depois de comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o nele. Em seguida, depositou-o num sepulcro cavado na rocha e rolou uma pedra sobre a entrada do sepulcro.       

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Meditar a Sagrada Escritura na Semana Santa – Segunda-feira Santa



A Igreja convida-nos a reviver, em espírito, os últimos dias do Salvador e os sentimentos que O animavam ao aproximar-se a Paixão. Isaías descreve antecipadamente a atitude do Justo sofredor, que confia a Deus a sua defesa; certo do triunfo, entrega-se aos adversários por amor de seus irmãos. O Evangelho mostra-nos Jesus durante uma refeição em Betânia, seis dias antes da Páscoa. Tudo indica o próximo desenlace: o gesto de Maria evoca a sepultura, os sentimentos de Judas fazem prever o crime do traidor, a presença de Lázaro ressuscitado pressagia a ressurreição do Senhor.        

EPÍSTOLA extraída do profeta Isaías (Is 50, 5-10)         
O Senhor Deus abriu-me os ou­vidos, e eu não resisti, nem recusei. Aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes. Endureci o meu rosto como uma pedra, pois sabia que não ficaria enver­gonhado. O meu defensor está junto de mim. Quem ousará levantar-me um processo? Compareçamos juntos diante do juiz! Apresente-se quem tiver qualquer coisa contra mim. O Senhor Deus vem em meu au­xílio; quem ousará condenar-me? Cairão todos esfrangalhados, como roupa velha, roída pela traça»
. Quem de entre vós teme o Senhor e escuta a voz do seu servo? Mesmo que caminhe nas trevas, privado de luz, confie no nome do Senhor e firme-se sobre o seu Deus.   

EVANGELHO segundo São João (Jo 12, 1-9)                      
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume. Nessa altura disse um dos discípulos, Judas Iscariotes, aquele que havia de o entregar: «Porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres?». Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava. Então, Jesus disse: «Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura! De facto, os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim não me tendes sempre». Um grande número de judeus, ao saber que Ele estava ali, vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos.                  

domingo, 14 de abril de 2019

Domingo de Ramos



Reportemo-nos ao século IV. Em Jerusalém lia-se, hoje, no próprio lugar em que a cena se desenrolou, a passagem do Evangelho referente à entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa, aclamado pelo povo como Filho de David e Rei de Israel. Um bispo, montando um jumento e rodeado da multidão, que, ao som e ritmo de hinos e antífonas, agitava ramos festivos, subia ao alto do Monte das Oliveiras e entrava na Igreja da Ressurreição. A Igreja de Roma adoptou este costume, no século IX, e juntou-lhe os ritos da bênção dos Ramos.                

Nós, portanto, reproduzimos o que os Judeus fizeram. Na procissão dos Ramos, é o povo cristão que, na plenitude da fé, faz seu o gesto dos Judeus e lhe dá todo o seu significado. À imitação do povo de Jerusalém, nós aclamamos a Cristo, como triunfador: «Hossana ao Filho de David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!». Conhecendo, pela fé, a sequência e o sentido dos acontecimentos, sabemos o que é, e o que representa o seu triunfo. Ele é o Messias, Filho de David e Filho de Deus, sinal de contradição, aclamado por uns, detestado por outros. Enviado ao mundo para nos arrancar ao pecado e ao poder de Satanás, sujeita-se aos opróbrios da Paixão, castigo das nossas faltas. Mas, vencedor da morte, sai triunfante do túmulo, restitui-nos a paz de Deus e eleva-nos consigo para o reino do Pai celeste.      

BÊNÇÃO DOS RAMOS         

Em latim:   
V. Dóminus vobíscum.   
R. Et cum spíritu tuo.           
Orémus.      
Bénedic
, quæsumus, Dómine, hos palmárum ramos: et præsta; ut, quod pópulus tuus in tui veneratiónem hodiérno die corporáliter agit, hoc spirituáliter summa devotióne perfíciat, de hoste victóriam reportándo et opus misericórdiæ summópere diligéndo. Per Christum Dóminum nostrum. R. Amen.       

Em português:      
V. O Senhor esteja convosco.   
R. E com o teu espírito.       
Oremos.       
Abençoai
, Senhor, estes ramos de palmeira, e fazei que aquilo que o vosso povo hoje pratica exteriormente, em obséquio vosso, o cumpra interiormente, com devoção fervorosa, triunfando do inimigo, e aplicando-se, com todo o coração, à prática das boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. R. Amen.

sábado, 13 de abril de 2019

Os jovens procuram a Verdade!, reflexão de um jovem católico português



Introdução
Introíbo ad altáre Dei. Ad Deum qui lætíficat juventútem meam[1]. É desta forma que tem início a Santa Missa Tradicional, a Missa que, em Portugal, especialmente nos últimos anos, tem vindo a ser cada vez mais procurada por fiéis jovens. A que se deve este “fenómeno”? Não tenho dificuldade alguma em justificar esta procura, não como uma forma de se querer ser “superior” a quem participa na Missa conciliar, como muitos querem fazer crer, mas como uma procura pela Verdade, esta Verdade que, no Altar do Sacrifício, pelas palavras do Sacerdote, se torna no alimento das nossas almas e nos concede as consolações espirituais de que tanto necessitamos, apesar da nossa indignidade[2]. Os jovens procuram o que é bom, não o que é passageiro. A hierarquia da Igreja, que tantas vezes roça a apostasia, salvo raras excepções, não compreendeu isso, aliás, não quis compreender isso, preferindo, miseravelmente, abraçar uma linha de acção diabólica que agrega maçons, comunistas, partidários do aborto, da eutanásia e da homossexualidade, bem como outro tipo de correntes relativistas e, por conseguinte, assumidamente satânicas. Satanás, o promotor da divisão e pai da mentira, tornou-se, na boca de muitos pretensos católicos, o sinal, por excelência, de uma suposta “integração” que, nas últimas décadas, se tem caracterizado por um discurso envenenado e que, geralmente, é apresentado através de palavras como “misericórdia”, “comunhão”, “reforma”, “sinodalidade”, “colegialidade” ou “ecumenismo”. Todos estes vocábulos, que têm dado origem a acontecimentos catastróficos, trazem consigo um custo elevado: ameaçam a salvação de muitas almas.                
Quando uma Família – constituída, unicamente pelo Sagrado Matrimónio, entre um homem, uma mulher e os filhos que Nosso Senhor lhes queira confiar – tem a graça de receber, no seu seio, um filho, torna-se imperativo dar continuidade à preparação que teve início quando, efectivamente, o homem decidiu procurar um trabalho para sustentar a família que se propôs, com a bênção de Deus, criar, dando cumprimento ao Seu Santo Mandamento: “Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra”[3]. E como dar seguimento a este gesto de amor? Educando os filhos para o que é bom e para o que é belo, não ignorando, como tem acontecido, que o sofrimento, se entregue a Deus, é algo belo e colherá, a seu tempo, os respectivos frutos espirituais; serve-nos de exemplo a postura dos Pastorinhos de Fátima, que, em tudo e sempre, se submeteram à vontade de Deus e da Sua Santíssima Mãe. Quando o pai pergunta ao seu filho o que pretende ser quando for mais crescido, seguramente, o jovem, se bem-educado, não responderá que pretende ser desempregado ou, indo mais longe, saqueador de bancos. O mesmo acontece quando o Pai Eterno, penetrando o mais íntimo das nossas almas, criadas para louvá-Lo e servi-Lo, nos dá a possibilidade de trilharmos o caminho do bem e, assim, da salvação. Quem, no seu perfeito juízo, optará pelo caminho do erro? É verdade que muitas são as almas que, por diversos motivos, ainda que nenhum seja válido, se afastam de Deus, e é imperativo que por elas rezemos; mas sabemos que o Homem foi criado para ser feliz já nesta terra, sem, contudo, pertencer ao mundo[4]. Como ser feliz nesta terra? Vivendo exclusivamente para Deus, sem se descuidar, evidentemente, os deveres associados a cada estado de vida. Os jovens, na sua esmagadora maioria, têm sede da Verdade, de uma Verdade que, pela infinita bondade de Deus, Se fez carne, em Belém da Judeia – Nosso Senhor Jesus Cristo –, para, mais tarde, ser crucificado e morrer para a nossa salvação. Porém, qual é a percentagem desses jovens que conhecem, amam e servem a Deus? Quantas são as famílias, nos nossos dias, que procuram, em tudo, manter uma íntima união a Deus ao longo da jornada, por exemplo, rezando juntos o Santíssimo Rosário, penhor de inumeráveis graças? A resposta é conhecida e a sua consequência é muitíssimo grave. Rezamos pouco, sacrificamo-nos pouco, dobramos pouco ou nada os joelhos. Apesar disso, um jovem que conheça a Verdade é capaz, usando uma útil metáfora, de mover montanhas e, por esse motivo, de se tornar incómodo aos olhos de uma Igreja que se acomodou no erro e se dedica a ignorar que a sua missão primordial é salvar almas!                              

Um caso concreto     
A origem desta exposição é, garantiria, providencial. Não pretende ser, de forma alguma, um tratado teológico, mas tão-somente uma partilha daquilo que, certamente, tantos católicos pensam e por que têm vindo a passar ao longo do tempo. E é curioso que teve origem, há alguns dias, numa Igreja que, outrora, se encontrava repleta de fiéis. O motivo da minha ida foi uma Devoção tão cara ao povo católico português, os Cinco Primeiros Sábados, pedidos, por Nossa Senhora, em 1925, ao mundo, por meio da Ir. Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, uma das videntes de Fátima. Os inimigos da Igreja, que se encontram, sobretudo, no seu interior, pretendem eliminar todas as formas de piedade que, ao longo de séculos, formaram tantíssimas gerações de santos e levaram para o Céu um incontável número de almas. Esta devoção, pedida pela Santa Mãe de Deus, é, aos olhos de muitos, algo a eliminar. De facto, a Virgem Maria sempre foi incómoda aos protestantes e aos seus perversos seguidores!                                 
Tendo em conta que, no primeiro sábado, não pude participar na Santa Missa Tradicional, sujeitei-me a ir comungar na Missa conciliar, apesar de, durante todo o tempo, ter permanecido a rezar o Santo Rosário, que também é largamente perseguido pelos “doutores da lei”, e foi nesse momento que, uma vez mais, constatei que, a cada dia que passa, a Igreja conciliar continua a esvaziar-se. Os pregadores da “salvação light”, isto é, da aterrorizante teoria de que todos vão para o Céu, estão a falar sozinhos e continuam a aprofundar o poço da iniquidade, que emana de correntes teológicas perversas, como é o caso da teologia da libertação, tão apreciada por muitos daqueles que, no Vaticano, vagueiam no Palácio Apostólico e conspiram contra o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quantas almas se estão a perder? Quem puder, com urgência, deve oferecer sacrifícios para que os Pastores da Igreja, com profunda humildade, reconheçam que têm vindo a seguir um caminho profundamente incorrecto, fazendo um sincero mea culpa, voltando à Sagrada Doutrina e combatendo aquilo a que São Pio X, de saudosa memória, por meio da Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, dada, em Roma, a 8 de Setembro de 1907, Natividade de Nossa Senhora, definiu como modernismo. O modernismo é um inimigo assumidíssimo da Fé Católica e, posto isto, deve ser combatido energicamente! Quem não se juntar às fileiras dos que defendem a Tradição, não pode afirmar que está em comunhão com a Santa Igreja de Deus.              

A Liturgia ao serviço de quê e de quem?   
A Liturgia, tristemente, tem vindo a ser, desde o Concílio Vaticano II, transformada num conjunto de rituais que em nada louvam a Deus, Criador do Céu e da Terra, mas que se destinam a promover o “presidente da celebração”, a desconsiderar que servir na Santa Missa é servir O próprio Cristo, fazendo-o de qualquer forma e sem preparação alguma, ao introduzir, por exemplo, as “acólitas” e práticas manifestamente protestantes, começando pelo próprio Missal Romano. A Liturgia conciliar, note-se, tornou-se um “agradável espaço de convívio”, que, repito, está a condenar muitas almas à perdição eterna. O quê que a separa do mundo? Em quê nos eleva a Deus?
Os jovens, quando conhecedores da Verdade, não se revêem neste triste aparato, tornando-se, e com razão, vozes incómodas nas comunidades paroquiais, chegando ao ponto de serem, não raras vezes, ostracizados pelos respectivos párocos, que se demitiram das suas responsabilidades, tornando-se administradores de bens e desperdiçadores de almas. É muito necessário rezar pela santificação do Clero, a começar pelo Santo Padre, para que se repare aquilo a que Nossa Senhora, em La Salette, no século XIX, referindo-se aos sacerdotes, chamou de cloacas de impureza, ou seja, esgotos de impureza! E a Liturgia, se bem celebrada e se colocada ao serviço de Deus, pode salvar almas. Como é que um jovem pode reagir quando descobre que tem vindo a ser enganado, pelos seus Pastores, ao ser-lhe apresentada uma Liturgia que não está ao serviço de Deus por se encontrar carregada de imperfeições e de limitações? É dever da Igreja assegurar que todos os fiéis têm direito à Santa Missa Tradicional, advertindo os bispos que não podem manter a postura de perseguição à Sagrada Tradição.                    

O Mistério Eucarístico     
Na sua obra sobre a Sagrada Comunhão[5], D. Athanasius Schneider, O.S.C., bispo auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima de Astana, no Cazaquistão, alerta para o facto de que a Comunhão na mão “nunca foi uma prática da Igreja Católica, dado que a chamada Comunhão na mão da Igreja antiga diferia substancialmente da prática actual, introduzida esta pelos calvinistas”[6], já que “no rito moderno, erroneamente considerado como rito da Igreja antiga, o fiel recebe a hóstia na palma da mão esquerda, pega nela com os dedos da mão direita e coloca-a na boca. Esta prática foi introduzida pelos calvinistas já a partir do século XVII. Do ponto de vista do gesto, este rito assemelha-se mais a uma forma de autocomunhão e ao modo de tomar um alimento profano”[7]. Os sacerdotes dos nossos dias estão, pasme-se, a promover a Comunhão self-service, uma prática que é condenável e que despreza, por completo, a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Quem não ama a Eucaristia, só pode ser complacente com o Maligno e as suas práticas, vindo a ser condenado por isso mesmo!  
Por que razão, como tem vindo a acontecer muito frequentemente, inclusive em Portugal, é negada a Sagrada Comunhão a quem opta pela forma ordinária de receber Jesus-Eucaristia, isto é, na boca e de joelhos? Com que direito é que um sacerdote pode fazer isto? A que se deve o silêncio e, não raras vezes, a arrogância dos bispos? Responde-nos a Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, através de uma carta datada de Julho de 2002, que “tal recusa não pode ter lugar, em relação a qualquer católico que se apresente para receber a Sagrada Comunhão durante a Missa, excepto nos casos de grave perigo de escândalo para outros fiéis por causa de pecado público que não tenha sido objecto de arrependimento público por parte da pessoa em questão, ou em caso de heresia ou cisma obstinados, publicamente professados ou declarados”[8]. Ora, concordará o prezado leitor, quem procura, de coração, a Verdade, não se encontra numa das situações acima descritas, pelo que a atitude da rejeição da Sagrada Comunhão a um fiel católico é um acto abusivo e os seus autores devem ser devidamente advertidos e canonicamente sancionados. É imperativo que o episcopado português tome consciência de que deve ser fiel à Sagrada Tradição, colocando de parte qualquer tipo de opinião pessoal e tornando-se obediente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Eterno Sacerdote.         
Ajoelhar perante a Realeza de Nosso Senhor é a consequência de um itinerário espiritual que deve ser constituído por determinadas condições, a saber: 1.ª – estar na graça de Deus; 2.ª – estar em jejum desde, pelo menos, uma hora antes do momento da Comunhão; 3.ª – saber o que se vai receber e, então depois, aproximar-se devotamente da Sagrada Comunhão. Quantos são os sacerdotes que, nos dias actuais, falam destas condições? É oportuno relembrar as palavras de Jesus: “Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e sangue do Senhor”[9].                

Acolher o quê e como?      
A missão da Igreja é salvar almas. É uma curta afirmação, mas a verdadeira. Não porque a escrevo eu, mas porque, ao longo de dois mil anos, sempre foi assim. Porquê que, agora, havemos de contrariar as Verdades da Fé, optando por um falso acolhimento? Muitos afirmam que a Igreja Católica, por ser Universal, deve acolher a todos. Dizem uma meia-verdade. Estão certíssimos ao afirmar que a Igreja Católica é Universal, mas profundamente errados quando, de forma maliciosa, afirmam que todos devem ser acolhidos mesmo persistindo no erro que os afasta da comunhão com a Igreja e, por meio dela, com Cristo. A conversão é possível e, por maioria de razão, louvável, mas persistir voluntariamente no erro é um acto de grande irresponsabilidade que deve ser combatido com todas as nossas forças. Deve a Igreja adaptar-se aos “novos tempos”? Não! Deve, sim, a sociedade reconhecer que Nosso Senhor é Rei do Universo e, logo, Rei de todas as sociedades, submetendo-se ao Seu serviço e juízo. Uma Nação que não serve a Deus é uma Nação, à semelhança de Sodoma e Gomorra, condenada à ira divina como resultado das suas paixões e vícios. “Então, o Senhor fez cair do céu, sobre Sodoma e Gomorra, uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo Senhor. Destruiu estas cidades, todo o vale e todos os habitantes das cidades e até a vegetação da terra”[10]. Que nos sirva de lição!         
Na introdução desta partilha, referi algumas situações que atacam impetuosamente a nossa sociedade e que, impreterivelmente, devem ser corajosamente combatidas pela Santa Igreja, a começar pela conduta dos seus Pastores, que deve ser irrepreensível. A Igreja deve combater a maçonaria, o comunismo e tudo aquilo que está associado a estas execráveis doutrinas, nomeadamente a homossexualidade, o aborto pago pelo Estado, a eutanásia apresentada como escolha legítima, a pornografia promovida nas Escolas, entre outras aberrações, que, em grande parte, encontram a sua origem na revolução cultural de 1968. Torna-se evidente que devemos corrigir os que erram, instruindo-os na Verdade e dizendo-lhes que a verdadeira religião é a de Nosso Senhor Jesus Cristo: a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. É adequado reler o que o Papa Pio XI, na sua Mortalium Animos, diz a este respeito: “Para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e a outra, o Filho Unigénito de Deus instituiu na terra a Sua Igreja”[11]. As Verdades da Fé são ameaçadas e Nosso Senhor e a Sua Santíssima Mãe são ultrajados sempre que os Pastores da Igreja se unem a seitas e aos rebeldes protestantes. Cabe, pois, aos jovens darem o exemplo ao combaterem, principalmente por meio da oração, estas heresias!   

A importância da Santíssima Virgem Maria        
Somos filhos muito amados de Deus, sabemo-lo! E um filho exemplar de Deus, apesar da sua condição de pecador, deve procurar estar sempre em união com Ele. Como fazê-lo? Para isso, deu-nos Deus a Santíssima Virgem, preservada de pecado antes, durante e após o parto de Nosso Senhor.        
Diz-nos S. Luís Maria Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, que “quando Maria lança raízes numa alma, produz nela maravilhas de graça, maravilhas que só ela é capaz de produzir, pois ela é a única Virgem fecunda, sem igual em pureza e fecundidade”[12].           
Portugal, Nação nascida com uma vocação vincadamente Católica, muito deve à Santíssima Virgem Maria. De entre todos os acontecimentos extraordinários, destacaria as Aparições de Nossa Senhora, na Cova da Iria, entre Maio e Outubro de 1917. Evidencio três pedidos, ainda hoje por cumprir, e uma garantia. Começando pelos pedidos, devemos saber que Nossa Senhora pediu fervorosamente que rezássemos o Santo Terço todos os dias e que, na Aparição de 13 de Julho de 1917, pediu a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados[13]. A garantia, que a todos deve animar, é muito concreta: “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará!”. Rezar o Terço todos os dias, como filhos de Nossa Senhora, é algo que está perfeitamente ao nosso alcance, sendo que devemos continuar, ou começar, a pedir a consagração da Rússia, por parte do Santo Padre e de todos os bispos, ao Imaculado Coração de Maria. No Concílio Vaticano II, para além da grave falha cometida ao não se ter condenado o comunismo, perdeu-se a oportunidade de corresponder devidamente a este pedido da Santíssima Mãe de Deus.                                 
Uma geração que reza o Terço e se consagra à Santíssima Virgem, segundo o método de São Luís Maria de Montfort, é uma geração que está no caminho certo, servindo a Deus como Ele quer ser servido. Amar o Filho é, inegavelmente, honrar a Mãe! Amar a Mãe é, irrefutavelmente, abandonar-se nas mãos do Filho.       

Conclusão         
Esta é uma concisa reflexão escrita por um jovem que, à semelhança de tantos outros jovens portugueses, pretende dar a conhecer a Verdade, que é Jesus Cristo. Desperdiçou-se uma excelente oportunidade de, no Sínodo dos Bispos sobre os jovens, se enveredar pelo caminho correcto e se apresentar a verdadeira doutrina às novas gerações. Uma geração que não conhece a existência do Inferno, uma geração que não conhece os Novíssimos do Homem, uma geração que não conhece a importância da Santa Missa e da presença real de Jesus na Eucaristia, uma geração que não se confessa regularmente, uma geração que não conhece e não defende a Virgindade perpétua de Nossa Senhora, uma geração que não medita a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e não recita os Mistérios do Santo Rosário, é uma geração condenada ao exílio imutável.               
Salvar almas é a missão da Santa Madre Igreja. Está ao nosso alcance, clérigos e leigos, mudar a perigosíssima direcção que a hierarquia da Igreja, ao serviço de interesses mundanos, está a indicar ao Povo de Deus. “Ai de mim, se eu não evangelizar![14], disse Paulo de Tarso. Ai de nós, jovens católicos, se não evangelizarmos e se não nos empenharmos na defesa da fidelidade ao Depósito da Fé, corrigindo os que erram e derrotando os que persistem no erro. O ilustríssimo Santo Agostinho de Hipona diz algo que nos deve ajudar a cultivar um amor cada vez maior pela Santa Igreja: “A Igreja é Santa, a Única Igreja, a Verdadeira Igreja, a Igreja Católica, sempre a lutar contra todas as heresias. Ela pode lutar, mas não pode ser derrotada. Todas as heresias são expulsas por ela, como os galhos pendentes são arrancados de uma vinha. Ela permanece presa à sua raiz, na sua vinha, no seu amor. As portas do Inferno não prevalecerão contra ela”[15]. Que tudo isto seja para maior glória de Deus e proveito das nossas almas! Dignum et justum est[16]servir o Deus que será, para sempre, a nossa alegria!          

Um jovem católico português




[1] Vou-me aproximar do altar de Deus. Do Deus que é a alegria da minha juventude.
[2] Compêndio da Doutrina Cristã, de 1905.
[3] Gn 1, 28.
[4] Jo 17, 15.
[5] Schneider, A., A Sagrada Comunhão e a Renovação da Igreja, Caminhos Romanos, 2015.
[6] Ibid., p. 73.
[7] Ibid., p. 74.
[8] Ibid., p. 151.
[9] 1Cor 11, 27.
[10] Gn 19, 24-25.
[11] Pio XI, Encíclica Mortalium Animos, n. 7 (6 de Janeiro de 1928).  
[12] São Luís Maria de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 35.
[13] Memórias da Irmã Lúcia, Secretariado dos Pastorinhos, 2010, pp. 176-177.
[14] 1Cor 9, 16.
[15] Santo Agostinho, Sermão aos Catecúmenos sobre o Credo, 6, 14.
[16]  Digno e justo é.