segunda-feira, 18 de março de 2019

Mistério da Fé



«O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue» (1 Cor 11, 23), instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue. As palavras do apóstolo Paulo recordam-nos as circunstâncias dramáticas em que nasceu a Eucaristia. Esta tem indelevelmente inscrito nela o evento da paixão e morte do Senhor. Não é só a sua evocação, mas presença sacramental. É o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos. Esta verdade está claramente expressa nas palavras com que o povo, no rito latino, responde à proclamação «mistério da fé» feita pelo sacerdote: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte».        

A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d’Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação. Esta não fica circunscrita no passado, pois tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente».  

Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e «realiza-se também a obra da nossa redenção». Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do género humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes. Assim cada fiel pode tomar parte nela, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado com jubilosa gratidão por dom tão inestimável. É esta verdade que desejo recordar mais uma vez, colocando-me convosco, meus queridos irmãos e irmãs, em adoração diante deste Mistério: mistério grande, mistério de misericórdia. Que mais poderia Jesus ter feito por nós? Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até ao «extremo» (cf. Jo 13, 1), um amor sem medida.     

João Paulo II, in Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia

sábado, 16 de março de 2019

O crucifixo submerso que atrai multidões


Mais de 1200 fiéis dos Estados Unidos foram ao Lago Michigan para caminhar sobre a água congelada e venerar a imagem de Cristo crucificado que está sob o gelo, a 8 metros abaixo da superfície e a mais de 200 metros da costa.                        

Nos últimos quatro anos, o crucifixo não pôde ser visto devido à instabilidade do gelo, mas a onda de frio do inverno de 2019 deu-lhe a consistência necessária. Portanto, no último dia 9 de Março, os visitantes foram para a cidade de Petoskey, em Little Traverse Bay Bay, para ver a escultura com a ajuda de uma iluminação subaquática e uma barraca para proteger dos raios solares.                           

“Quando o tempo permite, um clube de mergulho local perfura um buraco no gelo e convida as pessoas a verem a estátua. É a única maneira de contemplar o crucifixo, além de mergulhar no fundo do lago”, indicou ao Grupo ACI, a 13 de Março, Laurent Fady, representante dos Northern Michigan Aerial Services (Serviços Aéreos do Norte de Michigan).                 

Origem do crucifixo de Petoskey                      
A imagem de Cristo, com 3,35 metros de comprimento e 839 quilos, foi esculpida em mármore branco na Itália, em 1956, por artesãos locais.       

Foi encomendado por uma família de agricultores na cidade de Rapson, quando o seu filho de 15 anos, Gerald Schipinski, morreu num acidente na fazenda da família. Após o evento dramático, os pais do menor escolheram o crucifixo para colocar no seu túmulo. No entanto, a imagem ficou muito danificada devido ao seu transporte através do oceano. Quando chegou a terra, os pais recusaram-se a aceitá-la e exigiram uma nova.                  

Como devolvê-lo para a Itália seria muito custoso, decidiram emprestá-lo por uma temporada à Igreja Católica de São José, em Rapson. No ano seguinte, foi vendido por apenas 50 dólares num clube local de mergulhadores, que, então, decidiram mergulhar a imagem em homenagem a Charles Raymond, um mergulhador de Southgate, Michigan, que se afogou no Lago Torch nas proximidades. Mais tarde, os mergulhadores ampliaram a homenagem e incluíram todos os mergulhadores que perderam as suas vidas nas águas do Michigan.              

Todos os anos, um sábado de Fevereiro ou Março, se o gelo estiver firme, o público é convidado a atravessar o gelo para ver o crucifixo. Durante os últimos anos, o gelo esteve instável e os visitantes não foram convidados. Em 2015, o último ano em que o público viu o crucifixo, a Equipa de Mergulho do Escritório do Xerife do Condado de Emmet relatou um recorde de 2021 visitantes locais e internacionais que fizeram fila durante duas horas e meia para ver o crucifixo e rezar.

[Fonte: ACI Digital]

quarta-feira, 13 de março de 2019

As três funções dos sacerdotes segundo o Cardeal Sarah



O Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, esteve recentemente em Sevilha, onde encontrou os sacerdote da Arquidiocese e abordou a “identidade sacerdotal”. De acordo com o purpurado, são três as funções dos sacerdotes:

1) Ensinar em nome de Cristo Mestre
“Para poder transmitir com alegria este tesouro que recebemos do Senhor e que levamos em vasos de barro, temos que meditar, crer, ensinar e praticar, já que a santidade da vida do presbítero é a melhor pregação aos fiéis que se aproximam de nós pedindo: ‘Queremos ver Jesus’”. O Cardeal Sarah incentivou os presbíteros a que através da “vida sacerdotal, da pureza da nossa alma, da beleza, da profundidade da nossa vida de oração, as pessoas possam ver Jesus. O sacerdote não é apenas um alter Christus
, mas verdadeiramente um ipse Christus; o Sacerdote é Cristo mesmo”.           

2) Pastorear como Cristo, Bom Pastor                      
Neste segundo aspecto, o Prefeito perguntou aos sacerdotes presentes se eles próprios se deixam “pastorear por Cristo” e “guiar pelo Espírito Santo” para, assim, poderem permanecer “unidos ao Bispo e, sob a sua direcção, como bons colaboradores do episcopado, reunirem os fiéis numa só família”.                              

3) Santificar Cristo      
No que respeita ao terceiro e último aspecto, o Cardeal guineense disse que “santificamos o povo cristão porque fomos ungidos para isso e também para oferecer sacrifícios a Deus. Através do nosso ministério e das nossas mãos, mãos de pecadores que estão sempre em contínua procura da perfeição, o sacrifício espiritual dos fiéis alcançará a sua plenitude”.             

Como não poderia faltar, através de São João da Cruz, o Cardeal Robert Sarah falou da Virgem Santa Maria, convidando os padres a olharem para eles mesmos “dos pés à cabeça, alma e corpo, e vejamo-nos semelhantes à Santíssima Virgem Maria, que, com as suas palavras, trouxe Deus no seu ventre. Porquê que os sacerdotes não são santos, já que são o lugar onde Deus vem glorioso, imortal, inefável? Somos relicários de Deus, casa de Deus e, por assim dizer, criadores de Deus; para cujos nomes convém grande santidade”.                                

Ao vivermos o caminho Quaresmal, que nos conduzirá à Páscoa da Ressurreição, somos particularmente convidados a oferecer as nossas orações e sacrifícios pelas vocações sacerdotais e pela sua perseverança. Senhor, dai-nos muitos santos sacerdotes!

terça-feira, 12 de março de 2019

12 de Março de 1939, coroação de Pio XII

Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam; et portae inferi non praevalebunt adversum eam.
Mt XVI, 18

domingo, 10 de março de 2019

Novena simples em honra de São José



Oração inicial diária  
Deus misericordioso, aceitai benigno a mediação do glorioso Patriarca S. José, a quem constituístes chefe da Sagrada Família, para, por sua intercessão, obtermos as graças que humildemente pedimos.     

1.º dia, 10 de Março – Glorioso Patriarca S. José, que recebestes do Céu revelação do mistério de Cristo, fazei-nos conhecer melhor Jesus, nosso divino Salvador. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.

2.º dia, 11 de Março – Amabilíssimo S. José, que contemplastes, com inefável amor, a Jesus nos vossos braços, guiai-nos sempre pelo caminho das virtudes cristãs. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.

3.º dia, 12 de Março – Glorioso Patriarca S. José, livrai-me dos castigos merecidos pelo pecado e obtende-me as bênçãos de Deus. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.   

4.º dia, 13 de Março – Poderoso Patriarca S. José, chefe da Sagrada Família de Nazaré, socorrei todas as famílias com o pão do corpo e da alma. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.           

5.º dia, 14 de Março – Bem-aventurado S. José, trabalhador na oficina da Sagrada Família, fazei que todos os que trabalham gozem dignamente o fruto do seu trabalho. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.

6.º dia, 15 de Março – Bondoso S. José, pelos privilégios que Deus vos concedeu, livrai-nos de todo o pecado e alcançai-nos uma santa morte e a bem-aventurança eterna. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.

7.º dia, 16 de Março – Bondoso Patriarca S. José, consolador dos aflitos, obtende-me paciência e fortaleza nos sofrimentos e tribulações da vida. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.           

8.º dia, 17 de Março – Manso e humilde S. José, fazei-me atender sempre às inspirações do Divino Espírito Santo e obtende-me de Jesus todas as graças de que preciso. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.      

9.º dia, 18 de Março – Glorioso Patriarca S. José, a quem a Divina Providência confiou, na aurora dos tempos, a guarda da Igreja detentora dos mistérios da Salvação, guardai-a e protegei-a com todas as graças de que precisa. Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória. Oração final.         

Oração final diária     
Ó Deus que tanto honrastes S. José, permiti que ele nos socorra nas nossas aflições, pelos méritos de Vosso Filho Jesus que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Ámen.

sábado, 9 de março de 2019

Cerca de 4 a 5 mil sacerdotes celebram a Missa Tradicional



Antes de mais, importa referir que se trata de uma estimativa que Christian Marquant, Director do Centro Internacional de História Religiosa (Centre International d’Histoire Religieuse – CIHR), fez para a associação litúrgica francesa Paix Liturgique.           

Estes dados abrangem os seguintes sub-grupos:                

a) Cerca de 760 sacerdotes pertencentes à Fraternidade Sacerdotal de São Pio X e a comunidades religiosas a ela vinculadas.                    

b)
Aproximadamente 600 sacerdotes provenientes de comunidades anteriormente denominadas “Ecclesia Dei”, ou seja, estabelecidas de forma regular conforme o motu proprio Ecclesia Dei.            

c)
Cerca de 130 sacerdotes de comunidades religiosas que nunca estiveram sob a autoridade da extinta “Comissão Pontifícia Ecclesia Dei”, a título de exemplo: os sacerdotes pertencentes a Fontgombault e aos seus Mosteiros, ou Núrcia, entre outros.    

d)
Pelo menos, 3 mil sacerdotes diocesanos – número que pode chegar aos 5 mil se incluírmos aqueles que são cautelosos em relação aos seus bispos – que celebram, de forma regular, a Missa Tradicional, embora não exclusivamente, incluindo, pelo menos, 1000 padres nos Estados Unidos que, sem dúvida alguma, compõem o mais numeroso grupo Summorum Pontificum.                 

Marquant refere: “Os nossos 4500 padres associados à Missa Tradicional – 1500 sacerdotes tradicionais, aos quais devemos acrescentar 3 mil padres regulares ou diocesanos –, representam, pelo menos, 1,1% do clero católico mundial – ou mais, se só tivermos presente os sacerdotes da Igreja Latina, dado que se trata de um rito litúrgico em latim e se unicamente levarmos em conta os sacerdotes activos – que permaneceu ou se tornou tridentino, um número que está longe de ser pequeno se consideramos que tal identidade foi proibida por largo tempo e continua a ser muito perseguida. Apesar disso, o seu crescimento persiste!”.   

[Fonte: Rorate Cæli]

Número de católicos no mundo cresceu 1,1%



A Santa Sé apresentou o Annuarium Statisticum Ecclesiæ, onde são apresentadas as estatísticas actualizadas sobre a situação da Igreja Católica no mundo. No momento da publicação, os Católicos Baptizados representam 17,7% da população, ou seja, 1313 milhões de pessoas.          

Destes, 48,5% vivem nas Américas, 21,8% na Europa, 17,8% na África, 11,1% na Ásia e 0,8% na Oceânia. Em relação a 2016, o número de católicos no mundo cresceu 1,1%. A nível continental, a população católica aumentou 2,5% na África, 1,5% na Ásia, 0,96% nas Américas e, dramaticamente, na Europa apenas 0,1%, um crescimento praticamente inexistente. Pela primeira vez, desde 2010, o número de Sacerdotes diminuiu de 414.969, em 2016, para 414.582, em 2017. 

[Fonte: Rome Reports]

sexta-feira, 8 de março de 2019

No dia de São João de Deus, um convite à humildade!




Numa noite de inverno, voltava para o hospital segurando com uma mão o cesto cheio de alimentos, com a outra mão segurava o bastão e nas costas levava um pobre doente que tinha encontrado na estrada. A estrada era toda em subida e estava a chover torrencialmente. João escorregou e caiu. Aos gritos do doente, alguém foi à janela e viu João que batia a si mesmo com o bastão enquanto gritava para si mesmo: “Seu burro, estúpido, mole, preguiçoso, talvez não tenhas comido hoje? Então porquê que não trabalhas? Os pobres esperam-te  e olha o que fizeste a este  moribundo”. Depois, posto outra vez o doente nas costas, pegou no cesto e arrastou-se até ao Hospital.    

Antonio Sicari, in Ritratti di santi

quinta-feira, 7 de março de 2019

As últimas palavras de São Tomás de Aquino



A 7 de Março de 1274, no Mosteiro Cisterciense de Fossanova, em Itália, expirava S. Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Eis um relato dos seus últimos instantes neste mundo:         

O Santo Viático foi-lhe ministrado solenemente a 4 ou 5 de Março. O próprio Abade levou a Comunhão ao quarto do enfermo. Ao redor, estavam, de joelhos, os religiosos do Mosteiro e um bom número de Frades Menores (Franciscanos), os quais, na maioria, pertenciam à comitiva do Bispo Francisco de Terrafina, também presente nessa circunstância. E, finalmente, muitos Frades Pregadores (Dominicanos), que, à notícia da doença do Mestre Tomás, acorreram dos conventos vizinhos de Agnani e Gaeta. Reunindo todas as forças, Frei Tomás, levantou-se do leito e, prostrado por terra, ficou longo tempo em adoração a Nosso Senhor. Derramando muitas lágrimas, pronunciou belas palavras, entre as quais a sua profissão de fé, aquelas célebres expressões atestadas por Bartolomeu de Capua, pelos monges de Fossanova, registadas na Bula de Canonização: Recebo-Vos a Vós, preço da redenção da minha alma, por cujo amor vigiei, estudei e trabalhei. Desse Santíssimo Corpo de Jesus Cristo e dos outros Sacramentos muito ensinei e escrevi na fé em Jesus Cristo e na Santa Igreja Romana, a cujo juízo tudo ofereço e submeto.                  

40 dias pela Vida



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Meditação de Bento XVI sobre as Cinzas



Com este dia de penitência e de jejum — Quarta-Feira de Cinzas — iniciamos um novo caminho rumo à Páscoa de Ressurreição: o caminho da Quaresma. Gostaria de meditar brevemente sobre o sinal litúrgico das cinzas, um sinal material, um elemento da natureza, que na Liturgia se torna um símbolo sagrado, muito importante neste dia que dá início ao itinerário quaresmal. Antigamente, na cultura judaica, o uso de colocar sobre a cabeça cinza em sinal de penitência era comum, combinado muitas vezes com o vestir-se com um saco ou com trapos. Para nós cristãos, ao contrário, há este momento único, que tem, aliás, uma notável relevância ritual e espiritual.               

Antes de tudo, a cinza é um destes sinais materiais que levam a criação dentro da Liturgia. Os principais são, evidentemente, os dos Sacramentos: a água, o óleo, o pão e o vinho, que se tornam verdadeira matéria sacramental, instrumento através do qual se comunica a graça de Cristo que chega até nós. No caso das cinzas trata-se, ao contrário, de um sinal não sacramental, mas, contudo, sempre relacionado com a oração e a santificação do Povo cristão. Com efeito, é prevista, antes da imposição individual sobre a cabeça — que faremos daqui a pouco —, com duas fórmulas possíveis. Na primeira, elas são definidas «símbolo austero»; na segunda, invoca-se directamente sobre elas a bênção e faz-se referência ao texto do Livro do Génesis, que também pode acompanhar o gesto da imposição: «Recorda-te que és pó e em pó te hás-de tornar» (cf. Gn 3, 19).

Detenhamo-nos um momento sobre este versículo do Génesis. Ele conclui o juízo pronunciado por Deus depois do pecado original: Deus maldiz a serpente, que fez pecar o homem e a mulher; depois pune a mulher anunciando-lhe as dores de parto e uma relação desequilibrada com o marido; por fim, castiga o homem, anuncia-lhe a fadiga do trabalho e amaldiçoa o solo. «Maldita seja a terra por tua causa!» (Gn 3, 17), por causa do teu pecado. Por conseguinte, o homem e a mulher não são directamente amaldiçoados como, ao contrário, a serpente, mas, por causa do pecado de Adão, é amaldiçoada a terra, com a qual ele tinha sido moldado. Releiamos a magnífica narração da criação do homem com a terra: «O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que havia formado» (Gn 2, 7-8); assim narra o Livro do Génesis.           

Eis, por conseguinte, que o sinal das cinzas nos conduz ao grande afresco da criação, no qual se diz que o ser humano é uma singular unidade de matéria e de sopro divino, através da imagem do pó da terra plasmada por Deus e animada pelo seu sopro insuflado pelas narinas da nova criatura. Podemos observar como na narração do Génesis o símbolo do pó sofre uma transformação negativa por causa do pecado. Enquanto antes da queda a terra é uma potencialidade totalmente boa, irrigada por uma nascente de água (cf. Gn 2, 6) e capaz, por obra de Deus, de germinar «todas as espécies de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer» (Gn 2, 9), depois da queda e da consequente maldição divina ela produzirá «espinhos e abrolhos» e só em troca «de penoso trabalho» e do «suor do rosto» concederá ao homem os seus frutos (cf. Gn 3, 17-18). O pó da terra já não recorda só o gesto criador de Deus, totalmente aberto à vida, mas torna-se sinal de um destino inexorável de morte: «Recorda-te que és pó e em pó te hás-de tornar» (Gn 3, 19).          

Papa Bento XVI, in Homilia na Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas (2012)

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-Feira de Cinzas: início da Quaresma



A Igreja abre a Quaresma com a imposição das cinzas, lembrando, assim, aos fiéis, a sua condição de mortais e vincando bem a necessidade da penitência.

Na primitiva Igreja, a programação duma penitência colectiva para os pecadores culpados de faltas graves e públicas, acompanhava o trabalho de preparação do catecúmeno para receber o Baptismo no dia de Páscoa. Ao principiar a Quaresma, o bispo benzia os cilícios e as cinzas e impunha-as aos penitentes, que durante quarenta dias expiavam as suas faltas «in cinere et cilicio», na expectativa da reconciliação sacramental de Quinta-Feira Santa. A imposição das cinzas, como hoje a conhecemos, é uma extensão e transposição da antiga penitência pública: aquilo que, inicialmente, dizia respeito somente a uma categoria de fiéis, acabou por se aplicar a todos, perdendo, em consequência, o rigor primitivo[1].        

A expiação tem a sua parte no esforço de purificação, a que a Igreja nos instiga; porém, maior ainda a da misericórdia divina. Leituras, cânticos e orações da imposição das cinzas, como as da Missa que se lhe segue, convidam-nos a implorá-la confiadamente. Este esforço prosseguirá toda a Quaresma, na esperança da Páscoa e da alegria dos resgatados.         

D. Gaspar Lefebvre, in Missal Romano Quotidiano



[1] Foi o Papa Urbano VI, no Concílio de Benevento (1091), que prescreveu a imposição das cinzas a todos os fiéis.

terça-feira, 5 de março de 2019

109.º aniversário de Santa Jacinta Marto



Há 109 anos atrás, no dia 5 de Março de 1910, nascia, em Aljustrel, Jacinta de Jesus Marto, a mais nova dos três Pastorinhos de Fátima, beatificada a 13 de Maio de 2000 e canonizada a 13 de Maio de 2017. Apresenta-se, de seguida, um perfil da espiritualidade de Santa Jacinta, pedindo-lhe que interceda por nós junto de Deus!           

Em Jacinta é central a atitude da compaixão. Nela reconhecemos um coração com profundidade e paixão, completamente dedicado à missão que o Céu lhe confia. São dela as palavras que nos chegaram: “Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e de Maria!” (MIL 130). Desde o início das aparições desenvolve uma profunda devoção ao Imaculado Coração de Maria.          

Com as palavras do Cardeal Joseph Ratzinger compreendemos como o amor a Nossa Senhora configurou a vida da Jacinta: “ter devoção ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat – seja feita a Vossa vontade – se torna o centro conformador de toda a existência”. De facto, a pastorinha Jacinta aprendeu com Maria e na escola do Seu Imaculado Coração a fazer da vontade de Deus o centro conformador da sua existência: aprendeu com Ela a “fazer como Nosso Senhor” (MIL 44).   

Este desejo conformador da sua existência com o Coração de Jesus, levou a Jacinta a desejar segui-lo, percorrendo o mesmo caminho que o Mestre. O Senhor não fugiu à agonia do Getsémani, à solidão e ao abandono da Cruz. E a pequena Jacinta não rejeitou a solidão na doença, a aridez de lhe ter sido negada a comunhão eucarística – o que teria sido a sua última consolação possível no momento da morte -, não escapou à ferida aberta no peito, assemelhando-se ao coração trespassado de Jesus, que ela amou tão ternamente. E viveu tudo isto com alegria serena e numa entrega de amor, como testemunham os interrogados no seu processo canónico.

A pequena Jacinta, que “gostava tanto de pensar” (MIL 61), meditando e guardando tudo em seu coração, como tinha feito a Senhora que agora era a sua “Mestra na escola da santidade (João Paulo II), “e que a introduz no conhecimento íntimo do Amor Trinitário” (Bento XVI), aprende a ter um coração universal. Durante a sua estadia na prisão, em Ourém, quando Lúcia lhe pede para escolher uma intenção pela qual oferecer os sacrifícios – pelos pobres pecadores, ou pelo Santo Padre, ou em reparação ao Imaculado Coração de Maria – a Jacinta não hesita em responder: “eu ofereço por todas, porque gosto muito de todas” (MIL 53). 

Desenvolveu um profundo sentimento de compaixão por todas as formas de sofrimento humano que foi percebendo, na intensa luz de Deus e através do Imaculado Coração de Maria. Foi insaciável nesta sede de rezar e de oferecer sacrifícios pelos pecadores. Ardia-lhe a alma neste “zelo” pela salvação da humanidade que sentia como sua. Escutar Jacinta, nas suas inúmeras expressões de compaixão por todo o tipo de sofrimento e de miséria, faz nascer em nós a gratidão ao Pai, porque escondeu estas verdades aos sábios e inteligentes, e as revelou aos pequeninos (cf. Mt 11, 25).   

Em tempo de Carnaval, vigilate et orate!



Certa vez, em tempo de Carnaval, Ele apresentou-se-me na figura de Ecce Homo (cf. Jo 19, 5), carregando a Sua Cruz, todo coberto de chagas e contusões e brotando, de todo o Seu Corpo, o Seu Sangue adorável. Com uma voz dolorosamente triste, dizia: “Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e queira compadecer-se e tomar parte na minha dor ao ver o lastimoso estado em que Me põem os pecadores, sobretudo neste tempo de Carnaval?”. Prostrando-me aos Seus sagrados pés, ofereci-me a Ele, com lágrimas e suspiros. Colocou sobre os meus ombros aquela pesada Cruz, toda eriçada de pontas de pregos, e, sentindo-me sucumbida sob o seu peso, comecei a compreender melhor a gravidade e a malícia do pecado, a qual sentia tão vivamente no meu coração, que teria preferido mil vezes precipitar-me no Inferno a cometer voluntariamente um único pecado. “Maldito pecado – disse –, que detestável és pela injúria que fazes ao meu soberano Bem!”       

Sta. Margarida Maria Alacoque, in Autobiografia (capítulo IX)

A Igreja Católica é antiga, não velha!



A Igreja Católica é antiga, não velha. As ideologias novas tornam-se rapidamente velhas, passadas. A Igreja cativa sempre os jovens, fascina-os sempre. Todos os que prenunciam a sua morte morrem e ela fica. A Igreja não muda porque é a verdade. A Igreja Católica persiste porque não é uma construção humana.       

G. K. Chesterton

segunda-feira, 4 de março de 2019

São Casimiro, padroeiro da Polónia e da Lituânia



O desapego dos bens do mundo e o gosto pelas coisas do Céu andam lado a lado na alma do cristão. Peçamo-los a São Casimiro, que disso nos deu tão magnífico exemplo. S. Casimiro era filho de Casimiro IV, rei da Polónia, e de Isabel da Áustria. Praticou, no meio das tentações da corte, uma vida de austera mortificação, dominado pelo pensamento da Paixão do Senhor. Deste pensamento nascia também o seu horror pelo mal e um grande amor aos pobres, considerados como membros sofredores de Cristo. Morreu aos 26 anos, a 4 de Março de 1484. É o patrono da Polónia e da Lituânia. Em 1604, quando o seu túmulo foi aberto, para que pudesse ser sepultado na igreja que tinha recebido o seu nome, o seu corpo foi encontrado incorrupto e entre as mãos tinha um hino dedicado à Santíssima Virgem, que começava desta forma: Minha alma, a cada dia, dirija um canto a Maria [Omni die dic Mariæ laudes animæ].        

ORAÇÃO A SÃO CASIMIRO          
Ó Deus, que entre os atractivos da corte e as seduções do mundo, consolidastes admiravelmente na virtude o bem-aventurado Casimiro, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de desprezarmos também os bens da terra e de aspirar apenas aos do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. P.N., A.M., G.P.

A pseudo-liturgia conciliar

Pobres dos fiéis católicos que frequentam as Santas Missas em muitas das nossas igrejas. Submetidos tantas vezes às arbitrariedades de uma pseudo-liturgia pautada por distorções, abusos, ridículas inserções de palmas, agitação de folhetos, danças, símbolos e mais símbolos que não simbolizam nada. Quanto abuso! Quanta arbitrariedade! Quanta falta de respeito não só para com Aquele para quem deveria dirigir-se a celebração, mas também para com os pobres fiéis que são obrigados a engolir esdrúxulas situações falsamente chamadas de “inculturação litúrgica”, mas que na verdade revelam falta de fé ou a ignorância das mais elementares verdades da fé em relação à Eucaristia, à Presença Real e outras. Pobres fiéis guiados por alguns pastores que arrotam slogans fundados num palavreado eivado de conceitos atribuídos ao malfadado “espírito do Concílio” que, na verdade, de conciliar nada tem. Tal espírito passa longe daquilo que a Igreja de Cristo é e pretendeu favorecer com a reforma litúrgica. Pobres fiéis, forçados a ter de engolir o que destrói a fé, o que na prática nega a centralidade do Mistério de Cristo, poluindo-o com a tentativa de desfocar este Mistério através da inserção de conceitos ideologizados sobre Deus, o homem, a criação e tantas outras realidades.     

A “nobre simplicidade”, apregoada pelo Concílio, transformou-se em desculpa para uma “pobreza” litúrgica que se expressa em despojamento do elementar, em relaxo, sujidade, descaso e outros defeitos. Dá-se à Liturgia, portanto a Deus, o que há de pior: no mínimo, o que é de gosto duvidoso. Chegamos ao tempo em que quem obedece às Normas Litúrgicas é acusado de rubricista. Ai de quem ousar usar os paramentos prescritos pela legislação litúrgica vigente. No mínimo, será caracterizado como “romano”, o que na visão de muitos é considerado como uma ofensa. E quem celebrar usando com fidelidade os livros litúrgicos, “dizendo o que está em letras pretas e fazendo o que está em letras vermelhas”, será execrado pelos apregoadores do “autêntico espírito do Concílio”. Sinceramente, é preciso muita, mas muita fé mesmo para não deixar de acreditar que «as portas do inferno não prevalecerão», como nos ensina Nosso Senhor.   

D. António Carlos Rossi Keller, Bispo de Frederico Westphalen

domingo, 3 de março de 2019

Disposições para participar devidamente no Santo Sacrifício



As principais disposições para participar devidamente no Santo Sacrifício são de dois tipos: externas e internas. Vejamos, de forma breve, o que significa cada uma delas.                    

Externas: Para o padre, consistem em seguir perfeitamente as rubricas e cerimónias que a Igreja prescreve. Para o fiel, consistem no respeito, modéstia e atenção com que deve assistir a ela.    

Internas: A melhor de todas é identificar-se com Je­sus Cristo, que Se imola no altar. Oferecê-Lo a Deus Pai e oferecer-se n’Ele, com Ele e por Ele. Esta é a hora de Lhe pedirmos que nos transforme em pão, para sermos alimento dos nossos irmãos por meio da nossa entrega total pela caridade. União íntima com Maria junto à Cruz; com São João, o discípulo amado; com o padre celebrante, novo Cristo na terra. União com todas as Missas que são celebradas no mundo inteiro. Nunca peçamos nada a Deus sem incluir, como preço infinito da graça que desejamos, a seguinte invocação: “Senhor, pelo sangue adorável de Jesus, que neste momento algum padre está a elevar no cálice em algum lugar do mundo”.       

P. Antonio Royo Marín O.P., in Teologia da Perfeição Cristã

Tende sal em vós mesmos!


Concedei-me, Deus misericordioso,
que deseje com ardor o que Vós aprovais,
que o procure com prudência,
que o reconheça em verdade,
que o cumpra na perfeição,
para louvor e glória do Vosso nome.

Ponde ordem na minha vida, ó meu Deus,
e permiti-me que conheça o que Vós quereis que eu faça, concedei-me que o cumpra como é necessário e como é útil para a minha alma.

Concedei-me, Senhor meu Deus,
que não me perca no meio da prosperidade nem da adversidade;
não deixeis que a adversidade me deprima, nem que a prosperidade me exalte.

Que nada me alegre ou me entristeça
para além do que conduz a Vós ou de Vós me afasta.
Que eu não deseje agradar nem receie desagradar a ninguém,
excepto a Vós.          

S. Tomás de Aquino    

sábado, 2 de março de 2019

Bento XVI e o Ministério Petrino



O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.       

Papa Bento XVI, in Homilia na Santa Missa de Posse da Cátedra do Bispo de Roma (2005)

A propósito da Sagrada Comunhão na mão



1. Na Igreja antiga, nos primeiros séculos, a Sagrada Comunhão era recebida na mão mas de uma maneira diferente. Não era permitido tocar na Sagrada Comunhão com os dedos. A Sagrada Comunhão estava apenas na palma da mão direita e, depois, o fiel devia fazer uma inclinação profunda e tomar directamente com a boca a Sagrada Comunhão e, em seguida, purificar a palma da mão com a língua para evitar a perda de partículas eucarísticas; era esse o uso nos primeiros séculos.                                

2. Esta maneira moderna, que nunca existiu na história da Igreja, como já disse, de colocá-la na mão esquerda e de tomá-la com os próprios dedos, levando-a à boca, é uma espécie de auto-comunhão que nunca existiu, este uso foi inventado e praticado pelas comunidades calvinistas, pelo que esta moda que foi introduzida, declarando-se que esta é a maneira da Igreja antiga, o que não é correcto, é definitivamente um erro.  

Mons. Athanasius Schneider      

sexta-feira, 1 de março de 2019

Relato da conversão de um indígena no Brasil



Também achamos um principal deles, já cristão baptizado, sobre o qual me disseram que muitas vezes o pedira, e que, por isso, está de mal com todos os seus parentes. Um dia, achando-me eu perto dele, deu uma bofetada grande a um dos seus por lhe dizer mal de nós ou coisa semelhante. Anda muito fervente e é um grande amigo nosso; demos-lhe um barrete vermelho, que nos ficou do mar, e umas calças. Traz-nos peixe e outras coisas da terra com grande amor; não tem ainda notícias da nossa Fé, ensinamos-lha; madruga muito cedo para ter lição e, depois, vai aos moços para ajudá-los às obras. Diz que fará cristãos os seus irmãos e mulheres o quanto puder. Espero no Senhor que este há-de ser um grande meio e exemplo para todos os outros, os quais lhe vão já tendo grande inveja por verem os mimos e favores que lhe fazemos. Um dia, comeu connosco à mesa perante dez ou doze ou mais dos seus, os quais se espantaram do favor que lhe dávamos.           

P. Manuel da Nóbrega, in Carta ao P. Mestre Simão de Azevedo (1549)