quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Marx e Lutero no novo Missal francês



A França, primogénita da Igreja, brilhou em todos os tempos pela acção de insignes filhos seus em prol da conservação e expansão do Corpo Místico de Cristo.     

Pois precisamente lá circula larguissimamente, e também impunemente, o “Novo Missal dos Domingos – 1983”. Até agora, a obra, que conta com o imprimatur (29-6-82) de Mons. R. Boudon, Bispo de Mende e Presidente da Comissão Litúrgica Francófona, ainda não foi condenada. De sorte que as suas páginas vão intoxicando incontáveis fiéis de língua francesa, que nelas procuram o alento inapreciável dos textos litúrgicos conforme ao ensinamento perene da Igreja, mas encontram, misturados com estes, também trechos profundamente discrepantes do espírito católico. Limito-me a comentar aqui três tópicos característicos do “Nouveau Missel”.   

No final da Missa do domingo dia 13 de Março, o “Novo Missal”, na página 139, traz o seguinte sobre Marx! Sim, Karl Marx; o leitor não se enganou: “Há 100 anos, no dia 14 de Março de 1883, em Londres, falecimento de Karl Marx, economista e filósofo alemão. Alguns se surpreenderão de ver mencionar num missal o representante mais conhecido do ateísmo moderno. Mas a repercussão do movimento por ele lançado reveste-se de tanta importância que tal acontecimento não pode ser passado sob silêncio. O ateísmo marxista foi várias vezes condenado pelos Papas, ao passo que a avaliação da análise sócio-económica enunciada pelo marxismo cai sob a alçada das Ciências Humanas. Numerosas são as interpretações do pensamento de Marx. A mais corrente, e que é oficial nos Estados marxistas, continua a ver na religião uma alienação da qual o homem se deve emancipar”.           

Neste texto, tudo estarrece. Se a simples importância da obra de um homem justificasse ser assim mencionado num livro composto para os fiéis acompanharem as cerimónias litúrgicas, então toda a galeria dos grandes malfeitores da História deveria ser lembrada aos fiéis pelo Missal. Em rigor, e dado que a Encarnação e a Redenção foram factos históricos infinitamente mais importantes do que a expansão do marxismo, todos os que, face a uma ou a outra, actuaram a fundo em sentido negativo, também mereceriam ser relembrados pelo Missal mais ainda do que Marx. Para só falar do Novo Testamento, deveriam ser lembrados Judas, Pilatos, Herodes, Anás, Caifás, a série intérmina dos hereges célebres, dos apóstatas famosos, dos pecadores que se imortalizaram pelo escândalo. Não só lembrados, mas enfocados pelo Missal com a neutralidade matizada de simpatia, com que este disserta sobre Marx. Simpatia, sim, que chega ao ponto de afirmar que a doutrina sócio-económica de Marx está fora da alçada do Magistério da Igreja. Ou seja, que não há incompatibilidade entre a Doutrina Católica e o regime marxista, mas tão-só entre ela e o ateísmo marxista. O que é evidentemente inexacto.             

Tal atitude é tanto mais de pasmar quanto na apresentação (p. 4) se lê que “quando os nossos comentários reconhecem a sua simpatia por tal movimento de ideias ou por tal personagem, é porque aí se encontra latente uma pedra de ângulo do Evangelho”. Dever-se-á concluir daí que, em Marx e no marxismo, há uma “pedra de ângulo do Evangelho”?                     

Ancestral ideológico e histórico do ateísmo foi o protestantismo (cfr. Leão XIII, Encíclica Parvenu à la vingt-cinquième année, 1902), não espanta pois que o novo Missal também tenha instalado nas suas páginas o arquétipo de herege que foi Lutero. Assim, na “Semana de orações para a unidade dos cristãos”, menciona (p. 81): “Há 500 anos, no dia 10 de Novembro de 1483, em Eisleben, na Saxónia, nascimento de Martinho Lutero, cujo destino (sic) deveria pesar tanto sobre a unidade da Igreja”. A palavra “destino” parece ter aí conotação estranhamente fatalista, como que a isentar o heresiarca de responsabilidade pela sua obra de cisão e de luta.

Mais frisante ainda a menção de Lutero na semana de 6 a 12 de Novembro (p. 493): “Há 500 anos, em 10 de Novembro de 1483, nascimento de Martinho Lutero. Monge agostiniano, doutor em Teologia, deu relevo à doutrina paulina da justificação pela fé, a qual será a chave de cúpula do protestantismo: só a fé salva, não as obras. Escandalizado pelo tráfico das indulgências e pelos abusos da Igreja, Lutero publica os seus grandes escritos reformadores contra a supremacia romana, contra os sacramentos (exceptuados o Baptismo, a Eucaristia e a Penitência), contra a concepção da igreja visível. As suas posições são condenadas pelo Papa Leão X, é banido do Império, os seus escritos são proibidos e queimados. Passa o resto da sua vida, até 1546, defendendo as suas teses e organizando a sua igreja. Com o recuo do tempo, é-nos lícito deplorar que essa revolta – motivada em grande parte pela situação da Igreja na época – tenha desfechado numa ruptura entre irmãos cristãos”. O texto não poderia ser mais severo para com a Igreja, nem mais carregado de mal velada simpatia para com Lutero. A tal ponto que, na frase final, o leitor fica sem saber quem tem a culpa pela ruptura, se o heresiarca, com as suas negações, ou a Santa Igreja, com as suas negações.               

Muita outra coisa haveria que notar nesse Missal tragicamente censurável. Limito-me a evocar aqui os milhares de fiéis a assistirem à Missa com o livro em mãos e comemorando, genuflexos, em termos repassados de benevolência, Lutero, o heresiarca, e Marx, o arqui-ateu. A mim, isto parece-me mil vezes mais trágico do que o perigo atómico, a crise financeira internacional, ou qualquer outra coisa...          

Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, in Folha de São Paulo de 13 de Setembro de 1983

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