quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Entrevista exclusiva a Roberto de Mattei sobre a cimeira no Vaticano



No dia 21 de Fevereiro terá início no Vaticano um encontro dos Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, desejado pelo Papa Francisco, para tratar o tema dos “abusos sexuais de menores”. Na véspera do evento, uma coligação internacional de leigos, Acies Ordinata, promoveu uma manifestação pública na Praça de S. Silvestre, no centro de Roma. Colocamos algumas questões ao Professor Roberto de Mattei, Presidente da Fondazione Lepanto e promotor desta iniciativa.            

Corrispondenza Romana: Qual é, antes de mais, a sua opinião sobre a cimeira que decorrerá no Vaticano entre 21 e 24 de Fevereiro?      

Roberto de Mattei: A cimeira do Vaticano é dedicada aos abusos sexuais, um tema absolutamente redutor, porque a grave crise moral que existe no interior da Igreja não se limite ao problema da pedofilia. Parece-me escandaloso que não seja oficialmente afrontada a questão da homossexualidade, que é um problema muito mais extenso do que a pedofilia e é uma das suas causas. A homossexualidade não só é praticada, como é teorizada por redes organizadas, como afirmou justamente o Arcebispo Carlo Maria Viganò.                            

Corrispondenza Romana: Essa parece ser a mesma tese do activista gay Frédéric Martel, no livro Sodoma, que sai nestes dias…    

Roberto de Mattei: O livro de Martel representa, a meu ver, um ataque frontal do lobby gay internacional à Igreja Católica, à sua doutrina e às suas instituições. Martel afirma ter trabalhado durante quatro anos nesta obra, tendo viajado para trinta países e entrevistado 1500 pessoas. Se isto for verdade, não o fez, certamente, à sua custa. Quem é que o financiou? Quem é que organizou a espectacular operação mediática que vê o seu livro ser publicado contemporaneamente nas maiores casas editoras em sete línguas e vinte países? E porquê que o livro sai na véspera da cimeira no Vaticano, se não para exercer uma ameaçadora pressão sobre os bispos reunidos em Roma? A tese do livro é que quem condena a homossexualidade é um homofóbico que esconde em si um homossexual reprimido. Portanto, todos são homossexuais e aquilo que é preciso derrubar é a hipocrisia, como de resto afirma o Papa Francisco, que é elogiado pelo autor por ser “gay friendly”. É preciso “normalizar” a sodomia no interior da Igreja, desqualificando todos aqueles que se opõem a este processo, a começar pelo Cardeal Burke, que é ridicularizado num capítulo vulgar e inconsistente.        

Corrispondenza Romana: Quais são as razões pelas quais o Vaticano minimiza o problema da sodomia no clero enquanto enfatiza a pedofilia? 

Roberto de Mattei: A razão de fundo é a reversão das relações entre a Igreja e o mundo. Para a Igreja existe uma lei absoluta e universal, os Dez Mandamentos, que não se podem violar porque estão impressos na consciência de cada homem. Para o mundo, no entanto, não existe nenhuma lei moral. A regra da convivência civil é resumida pelo artigo 4 da Declaração dos direitos do homem e do cidadão da Revolução Francesa, que diz: “A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique os outros”. O ponto de referência não é uma lei superior, comum a todos os homens, mas o “outro”, considerado como o único limite para a afirmação da vontade de poder de alguém. O Estado é o supremo regulador dos interesses egoístas individuais, e crimes como a pedofilia são condenáveis, não porque violam a lei moral, mas apenas porque representam uma violência para com o nosso próximo. Quem pratica a homossexualidade ou o concubinato com um adulto que consente não prejudica o seu próximo e, portanto, é completamente livre de satisfazer os seus desejos, por mais desordenados que sejam. Esta filosofia iluminista é hoje aceite pelas supremas autoridades eclesiásticas que ignoram o conceito de lei moral e reconhecem como crimes apenas aqueles que são sancionados pelos Estados seculares. A consequência é que, no que diz respeito a crimes como a pedofilia, a Santa Sé hoje está em conformidade com os juízos de culpa e inocência da sociedade civil, renunciando a investigar e a processar por contra própria, excepto quando isso for necessário para não perder a “credibilidade” nos seus confrontos com o mundo, como aconteceu com o “caso McCarrick”. Parece que para Francisco a Igreja, se quer ser credível, deve adaptar-se aos critérios do mundo, em vez de se contrapor a eles.    

Corrispondenza Romana: Que coisa deveria fazer em concreto a cimeira do Vaticano para evitar o falhanço?

Roberto de Mattei: Os Pastores da Igreja, que têm a responsabilidade do seu rebanho diante de Deus, devem recordar que existe uma lei moral válida para todos os homens, que não é permitido violar, e, consequentemente, devem condenar e sancionar crimes graves, como a homossexualidade, mas também afirmar a existência de virtudes cristãs esquecidas, como a castidade, indispensável para aqueles que dedicam as suas vidas ao Senhor. Se o Sínodo se limitasse ao problema dos abusos sexuais, sem dizer uma palavra sobre a praga da homossexualidade que infesta a Igreja, se tivesse de fazer silêncio sobre lobbys homossexuais e a omissão dos círculos eclesiásticos “gay friendly”, este Sínodo trairia a sua missão. O Sínodo trairia a sua missão se se limitasse a denunciar alguns sintomas da crise mantendo o silêncio sobre as suas causas profundas, que remontam aos anos do Concílio e do pós-Concílio, quando o processo de desintegração da moral católica começou.  

Corrispondenza Romana: O slogan da vossa manifestação foi: “Em silêncio para derrubar o muro do silêncio”. A que silêncio se referem?       

Roberto de Mattei:
O muro do silêncio é aquele que nós encontramos na Igreja, onde o Papa Francisco sistematicamente se recusa a responder aos apelos, às dúvidas, às petições e até mesmo às correcções que lhe foram dirigidas desde o início do seu pontificado. Alguns estudiosos, como Eric Voegelin e Augusto Del Noce, identificaram na proibição de fazer perguntas a característica do totalitarismo. No choque entre a utopia e a realidade, para os ditadores é a realidade que se deve curvar à utopia. Trata-se de uma estratégia do silêncio que nasce da arrogância e consiste em ignorar todos aqueles que ousam, não digo opor-se, mas simplesmente fazer perguntas. O silêncio é, nesse sentido, a recusa de reconhecer no interlocutor a possibilidade de expressar uma verdade, simplesmente porque só existe a verdade do mais forte. Há um segundo tipo de silêncio, difundido hoje, o dos temerosos, os Pastores que não se atrevem a enfrentar os lobos, mesmo quando eles entram no redil. Dirigimo-nos a eles no nosso manifesto de 5 de Janeiro: “Ouse, monsenhor”. São Gregório Magno, na Regra Pastoral, define os maus Pastores como cães mudos, incapazes de ladrar” (Is 56, 10) “O que é para um pastor o medo de dizer a verdade, se não virar as costas ao inimigo com o seu silêncio?”. Os ditadores tiram a palavra, os covardes desistem de falar, nós gostaríamos de conversar, mas a palavra é-nos tirada, ou, melhor, a nossa palavra não é aceite, opõe-se-nos o muro do silêncio.

Corrispondenza Romana: Qual é o significado do silêncio que opondes ao muro do silêncio?                       

Roberto de Mattei: O termo Acies Ordinata, que escolhemos para a nossa iniciativa, quer honrar Nossa Senhora, a quem este título é atribuído pelo Cântico dos Cânticos (6, 3; 6, 9), e expressa a ideia de um exército organizado para a batalha, de maneira calma e ordeira. Filhos da Igreja militante, queremos romper o silêncio sepulcral dos Pastores da Igreja diante de uma crise doutrinária e moral sem precedentes. A nossa é uma atitude de oposição e resistência que não confiamos à palavra, mas a um gesto. O nosso testemunho público, combativo e orante, é, na verdade, palavra. Falar não é mover os lábios, mas manifestar exteriormente a própria fé. As palavras pronunciadas sem fé e contra a fé, diz Ernest Hello, são o suicídio da palavra. O nosso acto simbólico é, antes de mais, uma profissão de fé católica que quer devolver a Deus a honra que lhe é tirada. É também um apelo aos Presidentes das Conferências Episcopais, para que algum entre eles tenha a coragem de se levantar no Sínodo e romper o silêncio, dizendo ao Papa a verdade. Se assim não acontecer, o nosso silêncio ressoará no tempo como uma advertência, expressa por uma imagem simbólica: a imagem de um exército que toma partido na batalha e está pronto para lutar. Tomando partido, já combate, e escolhendo pegar em armas, já ganhou, porque não nos é pedido para vencer, mas para combater. A vitória é Deus quem a dá, como quer e quando quer.      

[Tradução de Dies Iræ. Fonte: Corrispondenza Romana]

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt