terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A “Arca da fraternidade” e a caridade cristã



O logotipo da viagem do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos mostra uma pomba com um ramo de oliveira. É uma imagem, explicou o Papa, «que relembra a história do dilúvio primordial, presente em várias tradições religiosas. De acordo com a história bíblica, para preservar a humanidade da destruição, Deus pede a Noé que entre na arca com a sua família». E também «hoje, em nome de Deus, a fim de salvaguardar a paz, precisamos de nos unir, como uma só família, numa arca que possa navegar pelos mares tempestuosos do mundo: a arca da fraternidade».       
De acordo com essa leitura, a Arca de Noé é uma arca de irmandade na qual homens de diferentes religiões vivem juntos, porque o próprio Deus queria o pluralismo religioso. De facto, o Papa acrescentou: «O pluralismo e a diversidade da religião, da cor, do sexo, da raça e da língua são uma sábia vontade divina, com a qual Deus criou os seres humanos».                    

Esta leitura parece derrubar a doutrina do Evangelho. De facto, a Arca, que Noé, por ordem divina, construiu antes do Dilúvio, como um refúgio para si mesmo, membros da família e todas as espécies animais (Gn 6, 13-22), é apresentada por São Paulo como um refúgio de salvação para os crentes e um sinal de perdição para o mundo (Heb 11, 7).                      

Portanto, a Tradição Católica sempre viu na Arca de Noé o símbolo da Igreja, além da qual não há salvação (cf. S. Ambrósio, De Noe et Arca, 6. 9, in Migne, Latin Patrology, vol 14, col. 368-374, e Hugo von Hurter, De arca Noe Ecclesiae typo Patrum sententiae, em Sanctorum Patrum opuscula selecta, III, Innsbruck 1868, pp. 217-233). É por isso que a Igreja tem a missão de preservar e difundir a fé católica.                 

De facto, Nosso Senhor disse aos Apóstolos: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado» (Mc 16, 16). E o Apóstolo dos Gentios reafirma: «Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo» (Ef 4, 5).                  

É dogma da fé proclamado pelo Quarto Concílio de Latrão sob Inocêncio III que «é única a Igreja universal dos fiéis e absolutamente ninguém pode ser salvo fora dela».                    

O princípio “nulla salus extra Ecclesiam” não exclui da salvação aqueles que estão fora da Igreja como resultado de um erro invencível, mas são pelo menos ordenados por um desejo implícito. No entanto, eles são privados da garantia da salvação e dos meios ordinários para alcançá-la.                   

Esta verdade de fé foi confirmada, entre outros, por Gregório XVI (Mirari Vos de 15 de Agosto de 1832); Pio IX (Singular quidem, de 17 de Março de 1856 aos bispos da Áustria); Leão XIII (Satis cognitum, de 29 de Junho de 1896). Pio XI na Encíclica Mortalium animos, de 6 de Janeiro de 1928, explica, por sua vez, que no campo da fé não se pode chegar à unidade fraterna da mesma maneira que no campo político.                      

Subordinar a verdade da fé à fraternidade significa professar o indiferentismo religioso, condenado de maneira constante pelo Magistério universal da Igreja.                    

A “Fraternidade”, juntamente com a “Liberdade” e a “Igualdade”, é um dos princípios fundadores da Revolução Francesa. O trinómio revolucionário é reduzido a um sistema de relações em que não há princípio transcendente para se referir, e os três valores supremos, considerados cada um como um absoluto, necessariamente entram em conflito uns com os outros.                      

Na falta de um fim superior, a fraternidade, longe de constituir um elemento de coesão na sociedade, torna-se a fonte da sua desintegração. Porque se homens, em nome da fraternidade, são forçados a viver juntos, sem uma finalidade que dá sentido ao seu sentimento de pertença, a “Arca” torna-se uma prisão, e a fraternidade, imposta em palavras é destinada a derramar-se num impulso centrífugo até à fragmentação e o caos.               

A simples afirmação da convivência fraterna não é capaz de justificar o sacrifício, que é a mais alta expressão de amor ao próximo; e isto porque sacrifício significa renunciar a um bem real em nome de bens superiores; mas a fraternidade não propõe qualquer bem maior que seja digno do sacrifício, além de convivência, que não é um valor, mas apenas um facto sem sentido. O mito da fraternidade oculta o egoísmo social mais profundo e representa a antítese da caridade cristã, a única verdadeira base das relações sociais entre os homens.                 

A fraternidade é também um princípio da Maçonaria, que pela sua ideologia e pelos seus rituais oferece uma paródia da doutrina e da liturgia cristã. Não surpreendentemente, a Grande Loja de Espanha agradeceu, com este tweet, ao Papa Francisco pela sua mensagem de 25 de Dezembro de 2018: «Todos os maçons do mundo unem-se ao pedido do Papa de “fraternidade entre pessoas de diferentes religiões”».      

«Na sua mensagem de Natal da varanda central do Vaticano – continuam os maçons espanhóis – o Papa Francisco pediu o triunfo da fraternidade universal entre todos os seres humanos. Fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas. Fraternidade entre pessoas de ideias diferentes, mas capazes de se respeitarem umas às outras e ouvirem as outras. Fraternidade entre pessoas de diferentes religiões. As palavras do Papa demonstram a actual retirada da Igreja do conteúdo da Humanum genus (1884), a última grande condenação católica da Maçonaria».                     

Na realidade, a Maçonaria continua a ser condenada pela Igreja, mesmo que os homens da Igreja, aos mais altos níveis, pareçam abraçar as suas ideias. Mas o ensinamento do Divino Mestre continua a ressoar nos corações fiéis: ali o amor ao próximo só pode ser fundado no amor a Deus. E sem referência ao verdadeiro Deus, que só pode ser amado dentro da Arca de Salvação da Igreja, a fraternidade é apenas uma palavra vazia que esconde o ódio a Deus e ao nosso próximo.                      

Roberto De Mattei

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