terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Uma ficção chamada Francisco


Durou pouco. De facto, o actual pontificado goza de certa sobrevida apenas por inércia. É uma espécie de vida vegetativa que persiste apenas em não morrer. Mas o povo não se engana mais.                       

Os escândalos sexuais nos Estados Unidos, o desconforto dos europeus com a obsessão migratória do pontífice, a derrota das esquerdas nos países mais importantes do Ocidente, tudo isso e mais um pouco são sinais mais que eloquentes de um pontificado autista, incapaz de interagir com a realidade, totalmente alienado.           

Mesmo entre os bispos, cujo assanhamento bajulatório chega a níveis de excitação verbal indecentes, tudo não passa apenas de papagueamento de oficialidades, enfim, um discurso vazio de prática. Na verdade, a Igreja de Francisco é um projecto nado-morto e os seus maiores propagandistas são aqueles mesmos que a abortam, relegando-a apenas ao cárcere das palavras, sem qualquer possibilidade de encarnação.

Por outro lado, o povo segue o seu instinto de ovelha, dessas mesmas ovelhas cujo cheiro o Papa Francisco alega carregar, mas das quais se afasta nas suas obras, aliando-se a toda a elite financeira que se quer servir do catolicismo apenas como outdoor para as suas ideias libertárias. Obviamente, nada disso seria possível sem o rebaixamento da Igreja ao nível de uma mera sociedade humanística embrulhada de aparência religiosa.      

Justiça social, paz mundial, ecologia integral, diplomacia multilateral e outros, são termos do léxico bergogliano, um dialecto pastoral cujo acento se torna não apenas incompreensível ao católico das ruas, mas que são, sobretudo, palavras quiméricas, esvoaçantes, que auto-denunciam uma perda total do contacto com o mundo concreto, com problemas reais. E as pessoas vão-se. Na Europa, tornam-se agnósticas; nas Américas, protestantes, pois ninguém suporta mais a cacofonia psicológica dos discursos nos quais as palavras são desconexas das coisas.  

O problema do catolicismo hodierno é eminentemente cognitivo. Não se trata só de uma linha teológica ou de um estilo de governo Papal. Os eclesiásticos estão a flutuar em nuvens cor-de-rosa, as suas palavras são meros pastéis de vento, cheias de nada. Os progressistas percorreram o mesmo caminho dos frankfurtianos, especialmente Lukács, e trocaram o povo real por um “povo possível”, existente apenas nas suas mentes intoxicadas por mundanismo. É com este povo imaginário que conversam, é para ele que escrevem, é a eles que pregam e, como estes não existem, o povo real assiste perplexo ao diálogo entre o padre e o fantasma teológico, percebe que o religioso está doido e, caminhando pelas ruas, encontra-se com o pastor pentecostal que toca na sua cabeça, escuta os seus problemas reais e ajuda-o a activar a sua Fé: um católico a menos na Santa Missa, um protestante a mais no culto.      

Como foi possível chegarmos a este nível de ruptura entre os eclesiásticos e o homem normal? Desde o início do século XX, a Igreja Católica passa por um sequestro, que se foi intensificando até o papado de Paulo VI e que chegou ao nível de completa hegemonia neste pontificado. Trata-se do total predomínio da diplomacia vaticana sobre a totalidade da Igreja Católica.     

São os diplomatas que governam a Cúria Romana, são eles que administram as nunciaturas e trabalham dentro das mesmas, são eles que escolhem os bispos e fazem-no sempre dentro do critério mais diplomático que existe: homens inócuos, privados de opinião, que deslizam pelos conflitos no clero com o rebolado de uma enguia, suficientemente ineptos para não terem nenhum tipo de ideia formada, politiqueiros que pensam apenas em adular os superiores, gente sem Fé e que não apresenta nenhum tipo de convicção religiosa forte que pudesse ser interpretada como fanatismo ou fundamentalismo, enfim, sujeitos completamente neutros, sem força de personalidade, e que sabem administrar muito bem as finanças de uma diocese, porque, ao fim e ao cabo, é por aí que se lhes mede o sucesso pastoral.      

Os diplomatas, porém, são apenas burocratas que precisam de se promover através da legitimação mútua. Vivem num teatro cujos espectadores são eles mesmos. A sua finalidade é apenas subir na hierarquia interna da diplomacia vaticana.

Estes senhores consagraram-se aos papéis e não desconfiam sequer que existe um mundo real por detrás deles. Interagem, portanto, apenas consigo mesmos e transitam por ideias puras, órfãs de substância. Não é de se admirar que tenham lançado a Igreja nas nuvens, como um papagaio de papel numa tarde de verão.      

O próprio Papa Francisco, aliás, é em engodo mal percebido. Mesmo a ideia de que seja um “papa pastoral” é um absurdo. Para percebê-lo, basta ler a sua biografia. Nunca foi pároco, nem sequer por um dia. Passou a vida inteira a cuidar de afazeres internos da Companhia de Jesus ou de colégios da mesma Ordem. Foi estudar para a Alemanha, mas não conseguiu notas suficientes para prosseguir os estudos. Sempre em conflito com os seus confrades jesuítas, denunciado pelo Padre Kolvenbach como ambicioso, conseguiu ser nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires, depois arcebispo e, por fim, papa.       

O papa argentino não tem uma base filosófico-teológica, nem tampouco suficiente conhecimento pastoral. Não lhe resta nada senão aquele romantismo idealista, cafona e irreal acerca de um povo que existe apenas nos papéis, nos livros sobre a “teología del pueblo”, nos discursos apaixonados e delirantes de quem nunca se confrontou seriamente com a realidade.           

Cativo nas mãos de burocratas perdidos, entregue aos cuidados de bispos que se comportam como figuras formais, guiado por um papa que compagina autoconfiança omnipotente com incompetência multidisciplinar, não é de se admirar que o povo siga na direcção oposta à completa desorientação dos seus dirigentes. Por outras palavras, não é exactamente o povo que está desorientado, são os pastores. O povo aprendeu simplesmente a ignorá-los.            E o povo ignora-os porque entendeu quem são eles, ou, melhor, quem eles não são.    

Sobre este aspecto, Bergoglio personifica bem o momento actual. Um papa pastoral que nunca foi pastor, o homem que quer mudar a história da Igreja mas é ignorante em teologia. Assim como o semi-analfabeto Lula, no Brasil, se dignou assinar um decreto de reforma ortográfica, Francisco é tão-somente o subscritor daquilo que os burocratas lhe dizem, enquanto eles mesmos vão lançando a Igreja num oceano de balões e de papagaios de papel. O caos eclesial para que este pontificado nos está a atirar é fruto mais da incapacidade intelectual destes senhores que de outra coisa: eles acham que estão a caminhar rumo à Igreja de Jesus, mesmo! Mas estão a delirar entre balões coloridos.                

Francisco é um nome vazio, o título de uma ficção, o apelido de um sistema fracassado; para os bons católicos, um pesadelo do qual anseiam acordar para que se lhes devolva a vida, a doutrina, a Igreja, para que retornem ao caminho de Deus, do Deus que sustenta a realidade, do Deus que alegra a nossa juventude.          

G. M. Ferretti    

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