quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, em Évora



A Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli foi construída, em Évora, entre 1587 e 1598, pelo Arcebispo D. Teotónio, da Casa de Bragança, a qual, uma vez reinante, enriqueceu artisticamente a igreja: no século XVII, D. Pedro II, com pórtico e fachada de mármore, admirada do exterior; no XVIII, D. João V, com retábulo de talha dourada; por isso, esta igreja foi declarada monumento nacional, em 1910.    

O mosteiro em si é pobre e simples, mas espaçoso: o claustro, com jardim dum hectare, é o maior de Portugal. Nele se encontram as celas, onde os cartuxos se consagram a Deus numa vida de oração na solidão e no silêncio. Das celas vão ao coro três vezes, Missa de manhã, Vésperas à tarde, Matinas e Laudes à meia-noite: quatro horas de canto gregoriano, sem acompanhamento instrumental, parte em latim, mas a maior parte em português.          

Como pobres de Cristo, os próprios monges atendem à manutenção da comunidade, mas os que para tal têm de sair da cela, ordinariamente os não-sacerdotes, trabalham ainda em solidão e em silêncio. A austeridade da sua vida permite-lhes reduzir esse tempo em favor duma larga dedicação, na cela, às ocupações do espírito: devoções, leitura, meditação, contemplação.     

A clausura, da qual não saem senão por necessidade e na qual ninguém entra senão por excepção, apenas os varões, ajuda a criar um ambiente favorável para a união com Deus. Precisamente essa união com o seu Senhor acende nos seus corações a caridade, que os move a rezar intensamente pela salvação de todos os homens e também os leva a unir-se intimamente aos outros solitários com quem convivem no mosteiro.          

Esta união praticam-na e exprimem-na nas festas, que celebram com actos comunitários mais frequentes: cantam mais tempo na igreja, comem juntos, conversam pela tarde. Outra tarde por semana saem de passeio, conversando entre si, pelos campos alentejanos, que ao norte da cidade estão despovoados e desertos. 

O mosteiro fica perto de Évora e o seu sino, especialmente o da meia-noite, forma parte do encanto da cidade-museu, património da humanidade. Hoje, a Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli é considerada pelos eborenses como um dos seus tesouros, artístico e, ainda mais, espiritual. E assim foi durante os séculos XVII e XVIII; naqueles tempos, professaram nesta e noutra cartuxa, que existiu em Lisboa, um português cada ano. Mas, em 1834, as forças revolucionárias, expulsaram os cartuxos, junto com todos os religiosos. O mosteiro passou a ser do Estado que o aproveitou para Escola de agricultura, a monumental igreja serviu de celeiro. No fim do século, a família Eugénio de Almeida adquiriu as ruínas. Em meados do século XX, o herdeiro, Vasco Maria, Conde de Vilalva, decidiu restaurar o mosteiro e devolvê-lo à Ordem. Sete foram os fundadores, em 1587, e sete os restauradores, em 1960. A partir de então, a vida cartusiana renasceu e reviveu em Santa Maria Scala Coeli, aberta ao ingresso de novas vocações portuguesas.   

As comunidades contemplativas são sempre pequenas e as cartusianas ainda mais – diziam os antigos que os cartuxos não se contam, só se pesam: para a vida litúrgica e a vida pobre desta Ordem, a tradição conformava-se com a dúzia, o “apostolado”. Grande é o atractivo que a Cartuxa exerce em Portugal, muitos os que se interessam por esta vida, mas a Ordem prefere manter a pureza dos seus costumes eremíticos e contemplativos, seleccionando bem os candidatos. É sempre possível e aconselhável uma visita, uma experiência, e Deus escolhe então os seus. Todavia, o bom Deus não lhes pede qualidades especiais para o canto, nem forças ou esperteza para o trabalho, nem habilitações para os estudos: apenas quer fé e amor, generosidade e desprendimento, e algo de que os cartuxos falam muito: simplicidade, no sentido de saber reduzir-se ao essencial, que é Deus, e renunciar a tanta coisa supérflua que a sociedade julga indispensável mas de que o solitário nem se lembra.         

Essa vida simples, mas profunda e elevada, vida divina no seu termo embora humana nos seus condicionamentos, desenvolve-se num mosteiro amplo, aberto ao céu alentejano, alegre na cal das suas paredes e no verde perene das suas plantas: laranjeiras, ciprestes, buxo, murta. Um “deserto” de 80 hectares rodeia e protege a casa, com eucaliptos, sobreiros, oliveiras, pastos para uma cabana de brancas vacas.       

Esta cartuxa, o único mosteiro contemplativo masculino em Portugal, tem como orago e padroeira Santa Maria Scala Coeli, Escada do Céu, advocação equivalente à Assunção de Nossa Senhora, mistério marial representado na sua majestosa fachada. A Virgem Branca olha, do seu trono de mármore da cartuxa de Évora, para as necessidades dos seus filhos portugueses e eleva ao Céu as suas mãos puras, numa prece solícita e maternal. Com ela e como ela, os filhos de São Bruno sentem como próprias as alegrias e aflições dos seus irmãos, e apresentam também a Deus a sua súplica enternecida. Os cartuxos não pregam, não ensinam; fazem, e é palavra de Pio XI, “muito mais”: oferecem ao Senhor, em favor de todos os homens, uma vida de sacrifício e oração, renúncia e amor, austeridade e recolhimento, silêncio e solidão, trabalho e liturgia, pobreza e obediência, castidade e estabilidade, ascetismo e misticismo: uma existência, enfim, de fidelidade ao Evangelho e de entrega total a Deus.  

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