sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O caso Viganò e o beco sem saída do Papa Francisco



Por fim chega uma resposta. Não a do Papa Francisco, em vão esperada, mas, em todo o caso significativa, a de um dos jornalistas que integram a sua comitiva mais próxima. O autor é Andrea Tornielli, vaticanista do diário La Stampa e administrador do sítio web Vatican Insider, o qual, em colaboração com o também jornalista Gianni Valente, acaba de publicar Il Giorno del Giudizio (O Dia do Juízo), extenso ensaio sobre o caso Viganò, com o eloquente subtítulo Conflitos, luta pelo poder, abusos e escândalos: o que está a acontecer realmente na Igreja (Edições Piemme, 255 páginas).                   

A tese de fundo de Tornielli é que o testemunho do Arcebispo Carlo Maria Viganò, sobre os escândalos na Igreja, é uma tentativa de golpe contra o Papa Francisco organizada por uma rede político-mediática internacional «aliada com certos sectores da Igreja norte-americana que conta com apoios nos palácios vaticanos» (pág. 3).   

O vaticanista de La Stampa interpreta a guerra religiosa em curso mais como uma luta pelo poder do que como uma batalha de ideias e parece esquecer que o conflito não o começou quem defende a Tradição da Igreja, mas quem deseja transtorná-la. Por isso, não se entende que a acusação de utilizar as armas mediáticas se reserve às críticas ao Papa Bergoglio e não aos seus admiradores.            

Por acaso, o Vaticano não confiou a McKinsey a função de agrupar os instrumentos de comunicação, criando uma plataforma digital única para a publicação de artigos, imagens e podcasts? Disse-o o próprio Tornielli, em La Stampa, no passado dia 22 de Março. Para o director de La Civilità Cattolica, Antonio Spadaro, a importância que atribui o Papa Francisco à internet e às redes sociais remonta ao dia em que foi eleito.       

Naquele momento, Jorge Mario Bergoglio «activou os milhares de pessoas presentes, conectando-as com a sua pessoa e com quanto acontecia, demonstrando que ele mesmo era uma rede social», declarou o mencionado jesuíta durante a apresentação do seu livro Ciberteologia: pensar o cristianismo em tempos de internet (Edições Vita e Pensiero).       

Se existem especialistas em técnicas de manipulação e instrumentalização das notícias, também os encontramos entre os mais próximos colaboradores de Francisco, desde o mesmo Spadaro até Monsenhor Dario Edoardo Viganò (que não tem nada que ver com D. Carlo Maria, com quem partilha o mesmo apelido), ex-Prefeito da Secretaria para as Comunicações do Vaticano, obrigado a demitir-se, no passado mês de Março, por causa da falada falsificação de uma carta confidencial de Bento XVI. Monsenhor Dario Viganò encomendou, ao director Wim Wenders, a realização do filme propagandístico O Papa Francisco: um homem de palavra. Em Itália, publica-se também uma revista chamada Il mio Papa, que conta o que faz Francisco durante a semana.    

Nenhum pontífice fez um uso tão intenso das armas mediáticas como Jorge Mario Bergoglio. No que diz respeito às revelações do Arcebispo Carlo Maria Viganò, Tornielli não nega que o Papa Francisco tenha recebido informações directas dele no sentido de que o Cardeal Theodore McCarrick tivesse corrompido sexualmente os seus seminaristas e sacerdotes. Tampouco nega a existência de imoralidade no seio da Igreja e de uma cobardia generalizada que permite que se estenda.         

Admite que a praga homossexual é um problema que «existe» (pág. 169), ainda que o minimize e ignore a existência de um grupo de sodomitas no interior da estrutura eclesial e de um igualmente activo lobby favorável ao movimento gay, que o apoia. Tornielli não consegue, portanto, desmentir D. Viganò, mas tem que defender o Papa Francisco. Fá-lo comportando-se como o jogador que sobe a aposta quando se vê em apuros. Neste caso, ao não poder negar que reina a corrupção entre o clero, tenta atribuir a maior responsabilidade aos antecessores de Francisco, a Bento XVI e a João Paulo II.          

O vaticanista de La Stampa leva, em primeiro lugar, ao banco dos réus, João Paulo II, responsável pela meteórica carreira do Cardeal McCarrick. «João Paulo II conhecia McCarrick. Tinha visitado a sua diocese há quatro anos, ficando impactado com aquele inteligente prelado que sabia encher os seminários, dialogar a todos os níveis em política e protagonizar o diálogo inter-religioso, firme nos seus princípios de doutrina moral e aberto aos temas sociais» (pág. 38).      

A nomeação do Arcebispo de Washingtion, de que já se falava no Vaticano, não passou pela Assembleia Plenária da Congregação para os Bispos, onde se deveria ter debatido, mas chegou por uma via muito directa, «como acontecia e, por vezes, sucede nas ditas nomeações, decididas precisamente desde o apartamento, omitindo o debate colegial pelos membros do Dicastério» (pág. 40).     

«É ofensivo, da parte de D. Viganò, dar a entender que, no ano 2000, quando McCarrick foi nomeado, João Paulo II estivesse tão doente que não podia estar ciente das nomeações, inclusive das mais importantes, nem das que naquele momento tinham assegurada a concessão do barrete cardinalício e, por conseguinte, a participação num futuro conclave. Não é necessário conhecer os arquivos secretos da Nunciatura em Washington (que terão sido consultados por Viganò) para saber que, na verdade, o Papa Wojtyła
ainda tinha pela frente cinco anos intensíssimos de todos os pontos de vista (pp. 40-41).  

Tornielli insiste: «Wojtyła não estava tão doente como quer fazer crer a informação de Viganò. Pelo contrário. De facto, via-se que estava perfeitamente capaz de estar ciente de certos processos de nomeação, pelo menos os mais importantes. Entre eles estaria, sem dúvida, o do novo Arcebispo da capital federal dos Estados Unidos. Tampouco há que ignorar o conhecimento de primeira mão que tinha o Papa Wojtyła de McCarrick, criado Bispo por Paulo VI, mas nomeado quatro vezes pelo pontífice polaco: primeiro para Metuchen, cátedra criada ex novo; mais tarde transferiu-o para Newark, diocese que João Paulo II visitou em 1995; depois, nomeou-o Arcebispo de Washington, apesar da sua avançada idade; e, por último, a inclusão imediata no Colégio Cardinalício» (pp. 43-44).             

A 27 de Abril de 2014, o Papa Francisco canonizou João Paulo II juntamente com João XXIII. A canonização de um Papa supõe que, no exercício do seu cargo de pastor supremo da Igreja, exerceu todas as virtudes em grau heróico, incluída a da prudência. Ora bem, se por cumplicidade, negligência ou imprudência, um pontífice encobre um predador sexual, há motivos para duvidar da sua prudência e bom critério.    

E se para Tornielli foi assim, isso quer dizer que não considera João Paulo II santo. Além disso, o prelado muito próximo dele e do Papa Francisco, D. Giusseppe Sciacca, Secretário da Assinatura Apostólica, «um dos mais inteligentes canonistas da Cúria» (pág. 200), entrevistado, a 9 de Setembro de 2014, pelo próprio Tornielli, negou a infalibilidade das canonizações. Se as canonizações não são infalíveis e o Papa Francisco pode ter-se equivocado com João Paulo II, é possível que, no mesmo dia, se tivesse equivocado com a canonização de João XXIII e que tenha cometido outro erro semelhante, no passado dia 14 de Outubro, ao canonizar Paulo VI. 

A questão não é secundária. Aumentando a aposta, Tornielli não só coloca em dúvida a prudência sobrenatural do Papa Wojtyła, como lança sombras sobre as recentes canonizações e, sobretudo, revela o beco sem saída diante do qual se encontra o pontificado de Bergoglio. Um beco sem saída que gira em torno da questão da infalibilidade.            

O próprio Papa Francisco considera, de facto, a infalibilidade como um legado da Igreja antiga, a que proclamava e anatematizava, a que definia e condenava. A primazia da pastoral sobre a doutrina e a da misericórdia sobre a justiça, impede a Francisco exercer o múnus da infalibilidade, que é o acto mais categórico e menos pastoral que pode realizar um pontífice.

Se quer impor as suas directivas à Igreja, o Papa Bergoglio precisa de uma quase infalibilidade que exclua toda a forma de desobediência aos seus desejos. Para cumprir o seu programa, o Papa quase infalível vê-se obrigado a converter-se num Papa ditador, como já está a acontecer. Quem é fiel à Tradição, crê, pelo contrário, na infalibilidade pontifícia e conhece o seu alcance e os seus limites. A noção dos limites da infalibilidade permite, a quem tem o sensus fidei, resistir ao Papa ditador.               

Ampliar a infalibilidade permitirá ao Papa, que um dia queira fazer uso dela, dissipar o fumo de Satanás que entrou na Igreja, condenando, sem apelo, os erros e corroborando, com igual solenidade, a Verdade perene do Evangelho.           

Roberto De Mattei

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