segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Aquilo que só o cristianismo, e mais nenhuma religião, trouxe ao mundo



O filósofo francês Gabriel Marcel disse: «A mulher que espera um filho é habitada, nem mais nem menos, pela esperança».    

O que esperam os homens? Esperamos o amor dos demais, plenitude de vida, amizade, alegria. No fundo, esperamos a felicidade; não entendida como uma vaga sensação agradável, mas como a realização de todos os nossos anseios e o culminar dos nossos esforços, o ligamento das nossas feridas, a recuperação das nossas forças, a descoberta do sentido daquilo que fomos, fizemos ou sofremos.   

O homem prefere viver sem pão a viver sem esperança. Com esperança pode-se suportar as mais desumanas torturas, como se pode observar na vida dos mártires. Sem esperança, até as coisas boas da vida diária se tornam amargas e perdem interesse.       

O cristianismo irrompeu num mundo que cambaleava como um ébrio por causa da superstição e do esoterismo, oscilando entre o desespero e o cansaço de tudo e um hedonismo impossível de satisfazer, e trouxe um caminho alto, luminoso e libertador. Chegou como uma lufada de ar fresco, como uma boa notícia que trouxe novo sentido à existência e uma razão para viver. Os cristãos fizeram-se conhecer pela sua amabilidade e hospitalidade. E, antes de tudo, como indicam os documentos mais antigos, porque não tinham o hábito de abandonar as crianças à morte, como faziam os pagãos. Graças ao cristianismo, valia novamente a pena viver; até ao ponto de que também merecia a pena transmitir a vida a outros, à prole. Ao contrário dos pagãos, os cristãos não procuravam evitar as gravidezes nem interrompê-las, nem tampouco se desfaziam de criaturas não desejadas. Aqueles que sabiam que Deus os havia contemplado com amor, desejando-os para Ele, adquiriram a faculdade de contemplar os demais com amor.    

Tal é a forma do amor que traz ao mundo a religião de Cristo. Não há outra religião igual. Nenhuma outra promete o mesmo. Nenhuma confirma as suas promessas com incontáveis amantes que amam até ao heroísmo e tantas maravilhas (tantos santos e milagres). Sob o domínio do cristianismo, viu-se que a vida era em si valiosa; e mais, tinha um valor pouco menor que infinito, porque com os sacramentos dava ao homem a possibilidade de adquirir a natureza divina e levava-o à vida eterna.     

E como a graça aperfeiçoa a natureza, podemos afirmar também que é uma verdade fundamental que a vida é boa, que é bom viver. Toda a humanidade sente um apego essencial e indiscutível à vida, e, se perguntada, toda a pessoa responderia que a vida é o mais elementar dos bens e que sem ela nenhum outro bem seria possível. Além disso, o coração de quem realmente ama deseja crescer e viver e o mesmo se pode dizer da criatura que resulta naturalmente do seu amor.  

Daí que chegar ao extremo de evitar a vida como alguém que foge da peste ou descartá-la como se não significasse nada e não valesse nada; como se tivéssemos direito a decidir se uma vida vale a pena ser vivida, e não apenas a nossa mas também a dos outros, chegar a semelhante extremo, é ter cortado o vínculo com o mundo, ter-se desligado do bem que é o ser, enganados com a ideia de que temos a última palavra sobre a vida.  

Não tendo cometido nenhum delito que mereça a morte, nós mesmos negaríamos aos demais os supostos direitos sobre a própria vida. Mas logo caímos numa tremenda contradição tornando-nos juízos tirânicos que decidem que crianças devem ou não nascer, futuras pessoas, como nós, que não fizeram nada para serem privadas da existência.

Na batalha pelo matrimónio, a procriação e a defesa da vida, temos que compreender que somos confrontados com uma combinação de niilismo metafísico e egoísmo espiritual muito mais poderosa que qualquer exército ou sistema político humanos; a uma diabólica perversão da mente e do coração que não se pode afugentar, a não ser com a oração, o jejum e o martírio, bem como dos erros e crimes que os primeiros cristãos enfrentaram e venceram.    

Peter Kwasniewski

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