terça-feira, 13 de novembro de 2018

“A situação é intolerável. Não só é possível, como é necessário criticar o Papa”



«O que aconteceu na última entrevista concedida a Eugenio Scalfari, durante a Semana Santa, supera todo o tolerável», declarou o Cardeal Raymond Leo Burke numa entrevista a Ricardo Cascioli publicada em La nuova bussola quotidiana no passado dia 4 de Abril.        

«Que um ateu pretenda anunciar uma revolução nos ensinamentos da Igreja Católica, afirme falar em nome do Papa e negue a imortalidade da alma humana e a existência do inferno, provocou um escândalo tremendo, não só para muitos católicos, mas também para numerosos laicos que respeitam a Igreja Católica e os seus ensinamentos ainda que não os partilhem», declarou o Cardeal norte-americano, um dos quatro subscritores dos “dubia”, em 2016. «Além disso, a resposta da Santa Sé à reacção de escândalo que ocorreu em todo o mundo foi extremamente insuficiente. Em lugar de reafirmar claramente a verdade sobre a imortalidade da alma e o inferno, a negação limita-se a dizer que algumas das palavras citadas não são do Papa. Não disse que o Sumo Pontífice não está de acordo com as ideias erróneas, e inclusive heréticas, expressas por essas palavras, nem que as repudia por serem contrárias à fé católica. Brincar dessa maneira com a fé e a doutrina, ao mais alto nível da Igreja, é, com razão, causa de escândalo entre os pastores e os fiéis».        

A uma pergunta de Cascioli sobre o silêncio dos seus pastores, o Cardeal Burke responde: «A situação agravou-se por causa do silêncio de tantos Bispos e Cardeais que partilham com o Santo Padre o dever de velar pela Igreja universal. Alguns limitaram-se a permanecer em silêncio. Outros fingem que não tem a menor gravidade. E outros propagam fantasias sobre uma nova Igreja, uma Igreja que embarca num rumo completamente novo, sonhando, por exemplo, com um novo paradigma para a Igreja ou uma conversão radical da praxis pastoral da mesma, tornando-a uma nova planta. Também há promotores entusiastas da suposta revolução na Igreja Católica. Os fiéis que percebem a gravidade da situação reagem com perplexidade diante da falta de direcção doutrinal e disciplinar por parte dos seus pastores. E para os que não entendem a gravidade da situação, essa falta deixa-os confusos e vulneráveis a erros perigosos para a sua alma. Muitos que entraram em plena comunhão com a Igreja Católica, depois de terem sido baptizados numa comunhão eclesial protestante, porque as ditas comunidades abandonaram a fé apostólica, sofrem imensamente com esta situação: dão-se conta que a Igreja Católica está a seguir o mesmo caminho de abandono da fé. Esta situação leva-me a reflectir cada vez mais sobre a mensagem da Virgem de Fátima, que nos adverte do mal – ainda pior que os gravíssimos males provocados pela difusão do comunismo ateu – que supõe a apostasia da fé no seio da Igreja. O número 657 do
Catecismo da Igreja Católica ensina-nos que “Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes”, e que “A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade”».       

O Cardeal Burke assinala possíveis iniciativas: «Diante de semelhantes situações os Bispos e Cardeais têm o dever de anunciar a verdadeira doutrina. Ao mesmo tempo, devem orientar os fiéis para que ofereçam reparações pelas ofensas a Cristo e às feridas infligidas ao Seu Corpo Místico, a Igreja, quando a fé e a disciplina não são devidamente salvaguardadas e promovidas pelos pastores. O grande canonista do século XIII Henrique de Susa, dito Hostiensis, diante da grave situação de como corrigir um Romano Pontífice que age contrariamente ao que lhe obriga o seu cargo, afirma que o Colégio Cardinalício é, de facto, um mecanismo de controlo dos erros papais. Se o Papa não exerce bem o seu ofício para o bem das almas, não só é possível como é necessário criticá-lo. Essa crítica deve ajustar-se aos ensinamentos de Cristo sobre a correcção fraterna (Mt 18, 15-18). Primeiro, o fiel ou o pastor deve expressar a sua crítica em privado para que o Pontífice possa emendar-se. Se o Papa se nega a corrigir a sua gravemente deficiente maneira de ensinar ou actuar, a crítica deve fazer-se pública, porque dela depende o bem da Igreja e do mundo. Alguns criticaram aqueles que expressaram publicamente críticas ao Sumo Pontífice, como se se tratasse de uma manifestação de rebeldia ou desobediência, mas pedir, com o respeito devido ao cargo, a correcção de uma confusão ou erro, não é um acto de desobediência, mas de obediência a Cristo e, portanto, também ao Seu Vigário na Terra».     

Emmanuele Barbieri

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