sexta-feira, 22 de maio de 2020

O juízo de Deus na história (I)


Terra infecta est ab habitatoribus suis,
propter hoc maledictio vastabit terram
Isaías 24, 6

Na época do coronavírus pode-se falar de tudo, mas há certos temas que continuam a ser proibidos, sobretudo no mundo católico. O principal desses temas é talvez o do juízo e da retribuição divina na história. A existência desta censura é uma boa razão para abordar o assunto.             

O Reino de Deus e a sua justiça 

Não parto do Antigo Testamento, onde as referências aos castigos divinos são inúmeras, mas das próprias palavras de Nosso Senhor, que nos diz: «Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça e tudo o mais se vos dará por acréscimo» (Mt 6, 33).  

Estas palavras do Evangelho são um programa de vida para cada um e recordam-nos uma das bem-aventuranças: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6).            

A noção de justiça é uma das primeiras noções morais da nossa razão: os filósofos definem-na como a inclinação da vontade de dar a cada um o que lhe é devido. O desejo de justiça está no coração de cada homem. Nós não procuramos apenas o que é verdadeiro, bom, bonito, mas também o que é justo. Toda a gente ama a justiça e detesta a injustiça. E como o mundo está cheio de injustiças e a justiça humana, aquela administrada pelos tribunais, é imperfeita, aspiramos a uma justiça perfeita, que não existe na terra e que somente em Deus podemos encontrar.     

O mais célebre processo da história, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, sancionou a mais clamorosa injustiça de todos os tempos. Mas Deus é infinitamente justo, porque dá infalivelmente a cada um o seu. A beleza do universo está na sua ordem e a ordem é o reino da justiça, porque a ordem é dar a cada coisa o seu lugar e a justiça é dar a cada um o seu: unicuique suum, como estabelecia o direito romano.                   

Roberto de Mattei            

Através de Corrispondenza Romana

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXII)


O primeiro capítulo do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria, foi um crescendo, até aos últimos números, do 47 ao 49, dedicado aos apóstolos dos últimos tempos. No segundo capítulo do Tratado, expõe algumas verdades fundamentais que nos ajudam a compreender em que coisa consiste exactamente a verdadeira devoção a Maria.           

As verdades fundamentais, expostas pelo santo, são as seguintes:     

A primeira verdade (nn. 61-67): Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem.

A segunda verdade (nn. 68-77): nós pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos.      

A terceira verdade (nn. 78-82): devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós, porque «as nossas melhores acções são manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós» (n. 78).   

A quarta verdade (nn. 83-86): precisamos de um mediador junto do próprio Mediador, que é Jesus Cristo. «Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, é ela a nossa mediadora de intercessão; para ir ao Pai Eterno é preciso ir a Jesus, o nosso mediador de redenção» (n. 86).                  

A quinta verdade (nn. 87-89): é-nos muito difícil conservarmos as graças e os tesouros recebidos de Deus. A fidelidade a Deus é um milagre da graça e esse milagre não é possível sem Maria. Só Maria nos pode ajudar a conservar a graça de Deus.  

Debrucemo-nos sobre a terceira verdade, porque se não nos esvaziamos do que há de mau em nós, se não adquirimos a virtude da humildade, se não abrimos o nosso coração ao Espírito Santo, não podemos avançar na compreensão mais profunda da mensagem do Tratado.        

Os números 78 e 79 estão entre os mais radicais da obra de Montfort, porque contrapõem a verdade do pecado original e das suas consequências à utopia do homem bom difundida pelo humanismo e pelo iluminismo. Leiamos as duras, mas salutares, palavras de São Luís:

«Para nos esvaziarmos de nós mesmos, é preciso, em primeiro lugar, conhecer bem, pela luz do Espírito Santo, o nosso mau fundo, a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação, a nossa fraqueza em todas as coisas, a nossa inconstância permanente, a nossa indignidade de toda a graça, a nossa iniquidade em toda a parte. O pecado do nosso primeiro pai, a todos e quase por completo, nos estragou, nos azedou, nos inchou e nos corrompeu, como o fermento lançado na massa a faz azedar, inchar e corromper. Os pecados actuais por nós cometidos, quer mortais quer veniais, ainda que já perdoados, aumentaram-nos a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e corrupção, e deixaram os seus maus restos na nossa alma» (n. 79).  

Continua o santo: «A tal ponto os nossos corpos estão corrompidos, que são chamados pelo Espírito Santo corpos do pecado, concebidos no pecado, alimentados no pecado e capazes de tudo, corpos sujeitos a mil enfermidades, que se corrompem de dia para dia e que não geram senão corrupção, sarna e vermes».

Antes de falar das nossas almas, o santo fala dos nossos corpos, porque é neles que se veem de forma mais evidente as consequências do pecado original: os sofrimentos físicos, a doença, a morte. O nosso corpo, depois do pecado, tem em si um germe de desintegração física que o leva à decadência e à separação da alma, o seu princípio vital. Nesta separação da alma do corpo consiste a morte e a morte é a consequência do pecado. O pecado introduziu no mundo todos os germes de decomposição e de morte que estão diante dos nossos olhos, mas dos quais, por vezes, temos dificuldade em reconhecer a verdadeira causa.       

Roberto de Mattei      

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sobre a comunhão eucarística em tempos de coronavírus



O recente acordo sobre o recomeço das celebrações litúrgicas com participação do povo causou, com as suas disposições, inquietação e desorientação em muitos fiéis. Há, portanto, muitas perguntas sobre o comportamento a ser seguido na situação sem precedentes que surgiu desde 18 de Maio de 2020 [em Portugal, as Missas com o povo recomeçarão a 30 de Maio, n. d. r.]. Como o problema tocas múltiplos âmbitos (teológico, jurídico, litúrgico, moral), não é possível fornecer uma única indicação a ser aplicada obrigatoriamente em todos os casos. Partindo de uma constatação incontestável (a ilegitimidade do acordo), tentámos definir alguns pontos fixos que lhe permitirão orientar-se nesta espinhosa circunstância. O autor é um distinto teólogo.     

***

Ocorre, antes de mais, observar que as disposições governativas sobre o recomeço das celebrações com o povo são absolutamente nulas: as autoridades civis não têm competência alguma em matéria de culto religioso; os representantes da Conferência Episcopal, por sua vez, não têm jurisdição nem sobre os bispos, nem sobre os sacerdotes, nem sobre os fiéis. Cada bispo, desde que esteja em comunhão com o Papa, é soberano na sua diocese pelo que compete à sua autoridade; em tal autoridade, todavia, não se enquadra o que é estabelecido pelas rubricas do Missal, que são lei para toda a Igreja e só podem ser modificadas pela Santa Sé, ou por sua própria iniciativa ou em resposta a eventuais pedidos dos bispos (rescriptive). A Santa Sé, por outro lado, tem faculdade apenas sobre os elementos não essenciais dos ritos, não sobre a sua substância imutável. As rubricas do Missal não dizem nada sobre o uso de luvas na celebração da Missa. No rito tradicional, o bispo, na primeira parte da missa pontifical, veste as quirotecas, mas retira-as antes de aceder ao altar para a parte sacrifical. Disto deduz-se que, segundo a Tradição eclesiástica, da qual a liturgia é testemunho qualificado, a Hóstia consagrada pode ser tocada só com as mãos nuas: a razão é que os fragmentos podem permanecer presos aos dedos que a seguram, motivo pelo que, depois da consagração do Pão, o sacerdote mantém unidas as pontas dos dedos do polegar e do indicador até que, terminada a comunhão, os purifique no cálice, bebendo depois o vinho e a água com que os purificou. O uso de luvas de látex, à luz de quanto se expôs, deve ser absolutamente excluído, salvo se se admitir a aberrante ideia de purificá-las no cálice que conteve o Sangue de Cristo. Além disso, o Corpo sacramental do Senhor, sendo o que de mais precioso a Igreja possui em absoluto, não pode certamente ser tocado com material desprezível que será colocado no lixo, mas apenas pelas mãos consagradas do sacerdote que, precisamente por isso, as lava imediatamente antes da Missa e não pode usá-las a não ser para actos bons ou indiferentes. Para além disso, todos os vasos sagrados, por respeito pelo que devem conter, são obrigatoriamente dourados; também disto se deduz que colocar voluntariamente as Espécies Sagradas em contacto com materiais vis é um atentado à sua sacralidade, isto é, um acto sacrílego em sentido amplo.

A distinção entre a substância (o Corpo de Cristo) e os acidentes (as espécies consagradas) não resolve o problema. Na Eucaristia, por um milagre permanente da omnipotência divina, persistem as aparências do pão e do vinho, mas essas já não permanecem nas respectivas substâncias do pão e do vinho, mas na do Corpo e Sangue do Filho de Deus feito homem e morto na cruz; o substrato ontológico (subiectum) a que pertencem já não é o seu, mas um outro, do qual são a tal ponto inseparáveis
​​que, uma vez destruídas as espécies, já não existe o Sacramento. Portanto, tocar a espécie não significa tocar apenas os acidentes, mas tocar a substância, embora esta última não seja visível em si mesma. Nalguns milagres eucarísticos, mesmo recentes, a espécies do pão mostrou a realidade: tecido muscular cardíaco de um homem sujeito a grave violência. Ora, o fiel que se encontre a assistir a uma Missa em que o sacerdote use luvas de látex para segurar e distribuir o Corpo de Cristo não tem a menor responsabilidade, pois não tem faculdade alguma para evitá-lo e não coopera positivamente naquela acção intrinsecamente má; no entanto, se pode participar facilmente numa Missa em que tal não aconteça, tem o direito de manifestar a sua própria desaprovação, evitando assistir a um acto que escandaliza a sua consciência. Também o sofrimento de ver o Senhor tratado de maneira, ao menos, irreverente é uma razão mais do que válida para ir a outro lugar, podendo fazê-lo, pelo menos depois de ter tentado persuadir o sacerdote a evitar o uso das luvas. A caridade pode sugerir várias maneiras de ajudar os ministros sagrados, com respeito e delicadeza, a tomarem consciência da responsabilidade que deles depende, não apenas para com Deus, mas também para com os fiéis.  

Nem o bispo nem, com muita mais razão, o sacerdote podem impor a comunhão na mão. A lei universal da Igreja estabelece a comunhão na língua como a forma ordinária, que apenas se pode derrogar quando a conferência episcopal o tenha solicitado e obtido licença da Santa Sé. Um bispo ou um sacerdote que imponha a comunhão na mão pode ser denunciado à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que tem a obrigação de intervir para chamar a parte interessada a cumprir as normas vigentes. Ninguém se deve sentir forçado na consciência a sofrer um tão grave abuso; se não obtém nada nem com a persuasão, nem com a denúncia, os fiel deve abster-se de comungar e recorrer a um sacerdote de confiança que lhe administre a comunhão na boca fora da Missa.

Não é necessário comungar para cumprir o preceito, nem a participação na Missa é imperfeita sem a comunhão; somente uma vez por ano os católicos têm a obrigação comungar, ou seja, na Páscoa (compreendendo todo o período pascal até ao Pentecostes). Na impossibilidade de receber a Eucaristia duma maneira adequada ao mistério, os fiéis podem fazer a comunhão espiritual. Abster-se da comunhão para não recebê-la na mão não é pecado, dado que não se está a repelir o Senhor, mas a rejeitar um modo de distribuí-Lo que repugna à fé e expõe o Santíssimo Sacramento a uma profanação involuntária que consiste na dispersão acidental de fragmentos. Sendo tal eventualidade altamente provável, é difícil considerá-la totalmente involuntária.          

Em síntese, as normas emitidas sobre o recomeço das celebrações com o povo não obrigam ninguém a nada, nem a nível civil, nem a nível moral ou canónico. O não cumprimento, por parte do sacerdote ou do fiel, não constitui pecado, nem sequer venial, dado não haver alguma racional hipótese de um maior risco de contágio se a Eucaristia for administrada correctamente; a recepção na língua, pelo contrário, continua a ser o método mais seguro também do ponto de vista sanitário, dado que o sacerdote é obrigado a lavar as mãos antes da Missa e deve, em qualquer caso, evitar tocar na língua dos fiéis. Portanto, ninguém se deve sentir obrigado a comungar num modo que a sua consciência não possa aceitar; por outro lado, quem aceita fazê-lo, porque de outra forma não pode aceder ao Sacramento, não comete pecado desde que tenhamo máximo cuidado para evitar a dispersão de fragmentos da Hóstia consagrada. A este propósito, o uso de um lenço de linho ou de um pratinho dourado não é resolutivo, dado que o fiel é obrigado a purificá-los imediatamente dos eventuais fragmentos, mas não tem nem a faculdade nem os meios, enquanto que o sacerdote purifica imediatamente, no cálice, a patena e o prato. Até agora, a perspectiva limitou-se às obrigações morais no sentido estrito; isto não exclui, todavia, que o zelo da fé e o ardor da caridade possam ir além do que é estritamente devido e exijam de alguns uma resposta mais radical: não apenas a rejeição absoluta, mas também a activa luta contra normas totalmente irracionais e ilegais que ultrajam o Santíssimo Sacramento, humilham a Igreja e pisam os direitos dos fiéis. As consequências judiciais e canónicas que tal escolha pode comportar são meios aptos para a obtenção da virtude heróica; de qualquer forma, as sanções civis ou eclesiásticas em que se pode incorrer não valem minimamente o que está em jogo, isto é, o respeito pela Presença Real e a fé dos católicos.    

O zelo autêntico não está separado daquela prudência sobrenatural que faz ter em conta o facto que muitos sacerdotes possam estar subjectivamente de boa fé, convencidos de cumprir a vontade de Deus obedecendo a disposições superiores que supõem, ainda que erroneamente, ter em vista o bem comum; portanto, ninguém se deve sentir autorizado a comportamentos inspirados pela agressividade ou pelo desprezo. Não esqueçamos que o juízo sobre as consciências pertence unicamente a Deus e que as mudanças interiores são sempre possíveis, mas requerem a ajuda da Sua graça; é por isto que nunca se rezará o suficiente pelos ministros sagrados e pelos seus superiores.

Através de Corrispondenza Romana

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXI)


O primeiro capítulo do Tratado termina com estas palavras, aplicadas aos apóstolos dos últimos tempos, que merecem ser meditadas com atenção pela força e pela verdade que as inspira:        

«Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade. Ensinarão o estreito caminho de Deus na completa fidelidade à verdade, segundo o santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo, sem se desinquietarem e sem fazerem acepção de pessoas, e não hão-de poupar, escutar nem temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão nos lábios a espada de dois gumes que é a palavra de Deus, e levarão aos ombros o estandarte sangrento da cruz, o crucifixo na mão direita, o terço na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e Maria no coração, a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta.

Eis os grandes homens que hão-de vir, mas será Maria a moldá-los, por ordem do Altíssimo, para estender o seu império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos. Mas quando e como acontecerá isto?... Só Deus o sabe. Quanto a nós, apenas nos cabe calar, rezar, suspirar e esperar: Expectans expectavi
» (n. 59).    

A missão dos apóstolos dos últimos tempos é, portanto, uma missão de pregação, São Luís já o disse no número 58, e de ensino, reafirma-o no número 59: pregação e ensino numa sociedade em que a palavra de Deus é abandonada mesmo pelos homens da Igreja, que têm o dever principal de ensinar e de pregar. Os apóstolos dos últimos tempos não pretenderão substituir os homens da Igreja e nem sequer serão presunçosos e exibicionistas nas suas pregações, mas caracterizados por humildade, modéstia e mortificação na sua conduta. Terão, no entanto, na sua boca – é a segunda vez que o santo diz –, a espada de dois gumes da palavra de Deus, a espada da verdade, num mundo em que a lei é a mentira e a hipocrisia. E pregarão a verdade, que não é a sua opinião, mas a palavra de Deus, sem temerem algum mortal, por mais poderoso que seja. 

Com uma mão combaterão, com a outra edificarão, disse no número 48 e agora diz que levarão o crucifixo na mão direita e o terço na esquerda. Uma mão que reza ininterruptamente, que desfia o Rosário, que nunca se separa de Nossa Senhora; a outra mão, erguida, que agita o crucifixo como uma espada contra os inimigos.    

Empunhando o crucifixo, combaterão os ímpios, os idólatras e os maometanos; apertando o Rosário, edificarão o Império de Deus, o Reino de Maria sobre toda a sociedade. São Luís está certo de que isso acontecerá. O que é incerto é apenas quando e como deverá ocorrer. «Só Deus o sabe», diz. «Quanto a nós, apenas nos cabe calar, rezar, suspirar e esperar». 

Em Fátima, Nossa Senhora confirmou a certeza de São Luís com a divina promessa: Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. E também nos revelou o cenário de tragédia, por causa dos pecados do mundo, em que esta promessa se realizará.     

Também nós devemos desejar que isso aconteça, e que aconteça em breve, para a maior glória de Deus. E, para que isso aconteça, é necessário que se difunda uma verdadeira devoção a Maria, mais profunda, mais ardente e eficaz do que todas as devoções a Maria que a humanidade até agora conheceu. O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem foi escrito para isso.         

Roberto de Mattei      

terça-feira, 19 de maio de 2020

Coronavírus: “Agora é tempo de uma nova internacional”



Desde que Marx e Engels lançaram o seu “Proletários de todos os países, uni-vos!” no Manifesto Comunista, os promotores da internacionalização da luta de classes fizeram várias tentativas para criar uma grande e única rede de subversão mundial. Para eles, as nações não existem; existem apenas duas classes em conflito: a burguesia e o proletariado, ambas globais.

A tentativa mais próxima de alcançar este ideal universalista foi a Terceira Internacional, mais conhecida pela sua abreviação alemã, o famigerado Komintern, que, entre as duas guerras mundiais, espalhou revoluções comunistas em todo o mundo. Inteiramente sujeito aos caprichos do Kremlin, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o Komintern foi oficialmente dissolvido por Stalin para desarmar psicologicamente os seus ex-aliados e, assim, conseguir infiltrar-se mais facilmente com uma revolução cultural de estilo gramsciano.         

Da sua parte, os pequenos grupos trotskistas dissidentes de Moscovo criaram uma efémera IV Internacional que operou entre 1938 e 1963 e depois se dissolveu numa série de cismas. Em vez disso, os anarquistas, herdeiros de Bakunin e das lutas do Maio de 1968, sempre sonharam, mas nunca conseguiram, unir-se numa grande rede internacional: o que é compreensível porque, afinal, são... anarquistas. 

No auge do processo de globalização e dos encontros anuais em Davos, sectores da esquerda radical, ainda chocados com o colapso da URSS, em 2001 lançaram o World Social Forum, que Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, saudou com esperança: «O novo mundo nasceu em Porto Alegre» (a cidade onde se realizou o primeiro encontro). No entanto, aquela alvorada teve vida breve e a última edição do WSF realizou-se em 2013.   

No mesmo ano, Jorge Mario Bergoglio subiu ao trono pontifício e procurou relançar a internacionalização da luta a nível global através de encontros com os chamados Movimentos Populares, dois dos quais realizados no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Tais movimentos, entre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os apanhadores de cartão argentinos, já estavam ligados entre si numa iniciativa chamada Via Campesina, mas estavam a perder força quando eis que receberam esta dose de esteroides do apoio e da bênção pontifícia. Aparentemente, a dose foi insuficiente, pois não conseguiram superar o descrédito que os cercava na América Latina devido às violentas actividades de ocupações ilegais de fazendas agrícolas e propriedades urbanas. No entanto, o espectro da miséria, vislumbrado devido ao colapso económico derivante do lockdown, está a mudar radicalmente o clima sociopolítico e a redistribuir as cartas para uma nova rodada de jogo político e cultural. Num artigo publicado no Intercept, a escritora e activista Naomi Klein explicou que aprendeu nas últimas duas décadas que, «durante os momentos de mudança cataclísmica, o que antes era impensável tornou-se imprevisivelmente realidade». Esta afirmação não é um ingénuo desejo da autora de No Logo, um dos livros de mesa de cabeceira do movimento antiglobalização. De facto, Naomi Klein deu o seu contributo para a criação da Internacional Progressista juntamente com o pré-candidato à presidência norte-americana Bernie Sanders, veterano anarquista e estudioso do MIT; com Noam Chomsky; com o ex-presidente equatoriano, em fuga da justiça, Rafael Correa; com o professor de marxismo e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (esmagado eleitoralmente por Jair Bolsonaro); com o falhado ministro da economia grega Yanis Varoufakis; com a capitã Carola Rackete, taxista marítima dos traficantes de imigrantes no Mediterrâneo, e com muitos outros.   

O evento inaugural da Internacional Progressista ocorreu, por videoconferência, a 15 de Maio, com a participação de cinco membros do Conselho: a Primeira-Ministra islandesa, Katrín Jakobsdóttir; o ex-ministro Yanis Varoufakis; a activista climática ugandense Vanessa Nakate; a advogada guatemalteca dos direitos humanos Renata Ávila; e o escritor e analista político Nanjala Nyabola, do Quénia.

“Unimos, organizamos e mobilizamos forças progressistas em todo o mundo”, afirma o slogan de boas-vindas ao visitante no site da organização. Inspirada nas actividades de Diem25 – um acrónimo de Democracy in Europe Movement 2025, um movimento pan-europeu lançado por Varoufakis – e no Sanders Institute, a nova Internacional Progressista aspira a um mundo igualitário, sustentável, ecológico, plural e pós-capitalista, onde «o culto do trabalho» será abolido. O organograma da organização especifica três áreas de intervenção: mobilização (movimento) para formar activistas e líderes; projecto para a elaboração de uma visão comum de um mundo transformado; e ligação publicitária para divulgar as análises críticas preparadas pelas bases. “Recuperando o mundo do pós-COVID-19” é o título da colectânea inaugural da secção projecto (Blueprint) escrita a seis mãos por Geoff Mann, Thea Riofrancos e David Adler, coordenador-geral do comité executivo da organização.       

Segundo os autores, o terreno nunca foi tão «fértil para o internacionalismo» como agora. «A luta pela ordem social no mundo após o coronavírus já está em andamento», portanto, a Internacional Progressista tem «uma frincha para incidir sobre a arena política e moldar o processo de formulação de políticas públicas». O objectivo é «traçar os componentes de um New Deal verde» de carácter internacional.

Da sua parte, a senhora Katrín Jakobsdóttir diz que é necessário «forjar solidariedades globais e colaborações entre forças progressistas além-fronteira contra uma direita autoritária e populista empenhada em usar a crise para avançar a sua agenda regressiva». Para a Primeira-Ministra do governo de coligação islandês e líder do Partido da Esquerda Verde, «se vez alguma houve tempo para agir, para fazer história, esse tempo é agora».     

Uma leitura particularmente recomendada na introdução da colectânea Blueprint é um artigo de Mike Davis, um sociólogo e historiador californiano que colabora regularmente com uma publicação trotskista inglesa que se define como “socialista internacional” e “marxista-ambientalista”.      

Com o expressivo título C’est la lutte finale (título em francês no original e texto em inglês), após extensas críticas aos governos dos países ricos do Norte e elogios à China (“centro” e “chefe dos bombeiros” da batalha mundial contra o COVID-19), Davis afirma que o inevitável pressuposto para a reconstrução da economia é «a propriedade social de sectores estratégicos, como a produção farmacêutica, os combustíveis fósseis (para formar trabalhadores e fechar poços e minas), os grandes bancos e as infra-estruturas digitais das quais depende a vida do século XXI (banda larga, cloud, motores de pesquisa e redes sociais). Por outras palavras, o regresso do projecto revolucionário socialista». Todavia, o trotskista Davis observa que «as vitórias socialistas num país ou noutro não levarão a um Grande New Deal Verde se não houver um novo internacionalismo» e uma «procura de comunhão com todos aqueles que abraçam os principais valores humanistas». E, acrescenta com devoção: «Actualmente, de facto, existem apenas dois líderes mundiais que invocam constantemente a urgência da solidariedade humana: um é o Dalai-lama e o outro é um adepto do futebol argentino que vive numa casa grande em Roma». Aos seus correligionários que pudessem ser reticentes a uma aliança com o Papa Francisco, Mike Davis recorda que «todos os grandes revolucionários – Paine, Danton, Garibaldi, Marx, Luxemburgo, Lenin, Trotsky e Che Guevara – conceberam a sua missão não apenas como a emancipação das classes trabalhadoras, mas como a libertação de toda a humanidade».

José Antonio Ureta    

Através de Fatima Oggi

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XX)


Nos números 58 e 59 do Tratado, São Luís continua a fulgurante descrição dos verdadeiros filhos e servos de Maria que a Divina Providência levantará contra os inimigos de Deus nos últimos tempos.    

«Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o Senhor dos exércitos dará a palavra e a força para operar maravilhas e arrebatar gloriosos despojos aos seus inimigos. Dormirão sem ouro nem prata e, o que é mais, sem cuidados, no meio de outros sacerdotes, eclesiásticos e clérigos, inter medios cleros; e, no entanto, terão as asas prateadas da pomba, para irem aonde o Espírito Santo os chamar, com a intenção pura da glória de Deus e da salvação das almas, e, nos lugares onde tiverem pregado, deixarão atrás de si o ouro da caridade, que é o pleno cumprimento da lei».      

Os apóstolos dos últimos tempos, segundo São Luís Maria, serão combatentes a quem o Senhor dará a palavra e a força. Diante do mal não se limitarão a calar e a rezar, mas falarão, pregarão, bradarão contra o mundo, trovejarão contra o pecado. E terão do Senhor a força necessária para operar maravilhas e alcançar gloriosas vitórias sobre os seus inimigos: não serão derrotados, serão perseguidos, mas sairão triunfantes da luta.

«Dormirão sem ouro nem prata e, o que é mais, sem cuidados»; viverão sem intranquilidade, sem preocupações; abandonar-se-ão totalmente à Divina Providência: aqui está uma sua outra característica, que encontramos na Oração abrasada do mesmo santo, quando diz que os apóstolos dos últimos tempos, «pelo seu abandono à Providência e pela sua devoção a Maria Santíssima, terão as asas prateadas da pomba: inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, isto é, a pureza da doutrina e dos costumes; e douradas as costas: et posteriora dorsi eius in pallore auri, isto é, uma perfeita caridade para com o próximo, para suportar os seus defeitos, e um grande amor a Jesus Cristo, para levar a sua cruz».   

No número 58, as asas prateadas da pomba também significam que se assemelharão ao Espírito Santo, representado pela tradição católica como uma pomba, e serão movidas por Ele. As asas servem para voar e, diz o santo no número 58, «serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo», irão, não para a sua própria glória, mas «aonde o Espírito santo os chamar com a intenção pura da glória de Deus e da salvação das almas». Homens, define-nos na Oração abrasada, como «nuvens elevadas da terra e repletas de orvalho celeste que, sem obstáculos, voem para todos os lados ao sabor do sopro do Espírito Santo».         

No número 35 do Tratado, São Luís disse que, com o Espírito Santo, Maria produziu a maior realidade do passado e do futuro: um homem-Deus; com o Espírito Santo continuará a produzir e a formar os seus filhos. E, no número 36, acrescentou que, quando o Espírito Santo encontra Maria numa alma, «voa até ela, entre nela plenamente e comunica-se a essa alma abundantemente, na mesma medida em que esta alma dá lugar em si à Sua Esposa».           

Serão, portanto, almas cheias do Espírito Santo porque cheias de Maria. E, com estas palavras, São Luís dirige-se ao Espírito Santo na Oração abrasada: «Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e de formar filhos de Deus com a vossa divina e fiel Esposa, Maria. Formastes, com ela e nela, a cabeça dos predestinados, e é com ela e nela que deveis formar todos os seus membros. Vós não engendrais qualquer pessoa divina dentro da Divindade, mas sois Vós apenas que formais todas as pessoas divinas fora da Divindade, e todos os santos que já existiram e que hão-de existir até ao fim do mundo são outros tantos produtos do vosso amor unido a Maria Santíssima».          

Roberto de Mattei

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XIX)


Os números do Tratado que vão do 56 ao 59 estão entre os mais belos e entusiasmantes de toda a obra. O santo pergunta-se: «Mas quem são esses servos, escravos e filhos de Maria?».  

«Serão – responde – um fogo ardente, ministros do Senhor que por toda a parte atearão o fogo do amor divino. Serão sicut sagittae in manum potentis, setas afiadas na mão da Virgem poderosa para trespassarem os seus inimigos. Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações e bem apegados a Deus, que trarão no coração o ouro do amor, no espírito o incenso da oração, e no corpo a mirra da mortificação, e que, por toda a parte, serão o bom odor de Jesus Cristo para os pobres e os pequenos, enquanto que para os grandes, os ricos e os mundanos orgulhosos, serão um odor de morte» (n. 56).         

Nesta passagem, São Luís repete, por três vezes, a palavra fogo para caracterizar os apóstolos dos últimos tempos. E dedicar-lhes-á uma outra obra com o significativo título “A oração abrasada”, em que evoca «esse dilúvio de fogo do puro amor» que Deus deve «atear em toda a terra de modo tão suave e tão veemente, que todas as nações, os Turcos, os idólatras e mesmo os Judeu dele se abrasarão e se converterão».  

Os escravos e filhos de Maria serão fogo ardente porque cheios do fogo divino que a devoção a Maria alimenta e propaga.        

E, no número 57, descreve-os, ainda, desta maneira:       

«Serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo. E, sem se apegarem a coisa alguma, nem se admirarem ou inquietarem pelo que quer que seja, espalharão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna» (n. 57).  

A sua força não vem, portanto, de si mesmos, mas do Espírito Santo que neles quer continuar a produzir as maravilhas que produziu em Maria. Apenas lhes é solicitado que sejam devotos autênticos de Maria e totalmente abandonados à acção do Espírito Santo, que é amor e que, enquanto amor, nutrirá o seu ódio pelos inimigos de Deus e da Igreja.         

Eles, continua o santo, «trovejarão contra o pecado, bradarão contra o mundo, fulminarão o demónio e seus sequazes. Atravessarão de lado a lado, vivam ou morram, com a sua espada de dois gumes, que é a palavra de Deus, todos aqueles a quem forem enviados pelo Altíssimo» (n. 57).                       

Eles terão na boca a espada de dois gumes da palavra de Deus. Porquê de dois gumes? Porque, dependendo de como é recebida a palavra de Deus, a espada da Verdade traz a salvação eterna ou a condenação eterna. Não é uma agulha que cose, é uma espada afiada que corta sem possibilidade de ajuste e leva à vida ou à morte.       

Não serão, portanto, testemunhas silenciosas e inertes da destruição que ocorre na Igreja de Deus. Romperão o silêncio, trovejando contra o pecado e gritando contra o mundo, empunhando a espada da Verdade. O pecado, nos últimos tempos, não será apenas individual, mas público e social. Quem defender publicamente a virtude e acusar o pecado será perseguido como um perturbador da ordem pública. Mas nada poderá parar os apóstolos dos últimos tempos, que têm Deus por Pai e Maria por Mãe. Eles, disse o santo no número 48, «hão-de combater com uma das mãos e edificar com a outra». Com uma mão derrubarão uma sociedade que se rege pela impiedade, com a outra edificarão o reino de Jesus e de Maria na sociedade.                     

Roberto de Mattei

domingo, 17 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XVIII)


No número 55 do Tratado, São Luís escreve: «Por fim, quer Deus que sua Mãe seja hoje conhecida, amada e honrada mais do que nunca, o que, sem dúvida, acontecerá se os predestinados entrarem, com a graça e a luz do Espírito Santo, na prática interior e perfeita que seguidamente lhes mostrarei» (n. 55).  

Aqui, neste ponto do Tratado, São Luís fala pela primeira vez daquela prática interior e perfeita que dá o título à sua obra: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.         

São Luís não se limita a expor razões teológicas para explicar por que devemos amar e honrar a Santíssima Virgem Maria; ele quer explicar como fazê-lo da maneira mais perfeita e eficaz. A sua obra não é apenas um Tratado teológico, mas um manual prático: é uma arma muito poderosa nas mãos de quem entender a sua importância e souber usá-la. Uma arma que São Luís entrega nas mãos dos eleitos, dos predestinados, que são os humildes escravos e filhos que Nossa Senhora suscitará para combater o demónio nos últimos tempos. Esta época da história será tempestuosa e será necessária uma ajuda especial da graça para superar todas as dificuldades sem se ser sugado no turbilhão das insídias do diabo. O Tratado da Verdadeira Devoção não é outro senão isto. Foi escrito, sob inspiração de Nossa Senhora, para aqueles que fazem parte da sua estirpe. Deus quer revelar-lhes uma prática interior e perfeita para realizar o seu grande plano: esmagar a cabeça do demónio e fazer triunfar Jesus e Maria no curso da história. O Tratado foi escrito para isto, para revelar de que modo, através de Maria e dos seus eleitos, Jesus deve reinar no mundo.   

E São Luís, no número 55, já antecipa em que consiste a perfeita devoção: os apóstolos dos últimos tempos «consagrar-se-ão inteiramente ao seu serviço como seus súbditos e escravos de amor». Aqui está tudo dito: a verdadeira devoção consiste na escravidão de amor a Maria. Graças a esta prática, escreve o santo, os predestinados «chegarão a bom porto apesar das tempestades e dos piratas»; «conhecerão as grandezas desta soberana»; «experimentarão as suas doçuras e bondade maternais, e amá-la-ão ternamente como seus filhos muito queridos»; «compreenderão assim que ela é o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito para ir a Jesus, e entregar-se-lhe-ão de corpo e alma, inteiramente e sem reservas, para igualmente pertencerem a Jesus Cristo».        

Esta passagem contém uma verdade que um dia a Igreja formulará como dogma infalível: o dogma de Maria medianeira de todas as graças, um dogma de que São Luís Maria é, podemos dizer, o chantre, como Duns Escoto o foi da Imaculada.    

É uma verdade de imensa importância para a nossa vida espiritual, mas também para toda a humanidade. De facto, sabemos que não podemos fazer nada sem a ajuda de Deus, mas que, ao contrário, com a ajuda de Deus, tudo é possível. Esta ajuda de Deus vem através da sua graça, à qual devemos corresponder com a nossa fé e com as nossas obras. A graça depende de Deus, mas Ele quis a distribuição das graças dependesse de Nossa Senhora. Maria é a medianeira universal através da qual passam todas as graças. Quem pede uma graça a Maria, recebe-a. E São Luís Maria ensina-nos a maneira mais perfeita de pedir.                     

Roberto de Mattei

Nossa Senhora da Misericórdia, oração que se faz arte



“À Vossa protecção recorremos, Santa Mãe de Deus”, Sub tuum praesidium.

Qualquer pintura, afresco ou relevo plástico representando Nossa Senhora da Misericórdia, seja qual for a época a que pertence, parece traduzir visualmente uma das mais antigas composições poéticas litúrgicas, o Sub tuum praesidium, uma invocação mariana, que remonta ao século III, que testemunha o paleocristão costume do povo de se confiar à protecção de Maria.       

São diversas e múltiplas, no entanto, as fontes históricas e devocionais que contribuíram para o nascimento e a difusão da iconografia da Virgem Maria, em cujo abraço era e é possível, para todos, procurar protecção. A própria Virgem, que apareceu em visão a Santa Brígida, disse-lhe: «Sou por todos chamada Mãe da Misericórdia. (...) Fez-me misericordiosa a misericórdia do meu Filho e, com Ele, complacente. Tu, portanto, vem, minha filha, e esconde-te debaixo do meu manto».      

Famosíssima é a versão que do tema deu Piero della Francesca quando, a partir de 1445, por encomenda da homónima Confraria de Sansepolcro, a sua cidade natal, criou o políptico da Misericórdia para o altar-mor da sua igreja. A obra monumental, composta por 23 compartimentos, foi desmembrada durante o século XVII: perdeu-se a moldura original, mas, felizmente, foram conservados todos os painéis, agora guardados no Museu Cívico. O painel de Nossa Senhora da Misericórdia, cercada por santos distribuídos em diferentes registos e pela predela com as Histórias da Paixão, é o coração de toda a composição.        

Hierática e imponente, Maria destaca-se no fundo dourado do quadro, legado da tradição pictórica gótica tardia que aqui acentua a sacralidade da figura cujas formas plásticas seguem, pelo contrário, o exemplo moderno de Masaccio. Inovadoras são também a ilusão do espaço unificado, que o pintor sugere através da invasão de alguns detalhes nos painéis laterais, e a grande profundidade de perspectiva criada pelo hemiciclo dos espectadores ajoelhados e pelos braços abertos de Maria. 

A Virgem, numa posição rigorosamente frontal, é muito maior que os outros personagens. É a Rainha do Céu, a cabeça cercada por uma coroa e uma auréola, equilibrada no oval perfeito do rosto, inconfundível código estilístico do artista. O seu gesto é firme, decidido, de uma maneira poderosa: acolhe no seu ventre, figura da Igreja, homens e mulheres que a ela recorrem para encontrarem protecção. A todos envolve uma sobrenatural luz dourada, dimensão que o olhar solene e concentrado de Maria parece confirmar. 

O seu abraço materno é, portanto, o caminho pelo qual é possível o encontro entre o divino e o humano. Se observamos os devotos adoradores, reconhecemos, de facto, fisionomias individuais, de modo algum genéricas: são homens e mulheres da época, e talvez também do lugar onde foi pintado o políptico, que aqui representam todo o povo de Deus, sem distinções de género, de classe ou de idade. As suas diferentes posturas deixam aberta uma lacuna no centro: é o nosso ponto de observação que ocupa a parte de dentro do manto em que nos sentimos envolvidos também nós.           

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 16 de maio de 2020

Cardeal Zen: «Na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista»



O Cardeal Joseph Zen, Arcebispo emérito de Hong Kong e um dos três cardeais que assinaram o recente Apelo para a Igreja e para o mundo, carregou contra a globalização e contra o regime comunista chinês na sua intervenção na conferência deste ano da Rede Internacional de Legisladores Católicos    

«O facto é que se originou uma pandemia na China e se espalhou rapidamente por todo o mundo», assinala Zen, que faz uma dura crítica contra o fenómeno da globalização, ao mesmo tempo que recorda que, «na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista».      

Na sua intervenção, o cardeal chinês aproveitou esta peste «de dimensões apocalípticas» para pedir uma revisão das premissas da globalização. A globalização, disse, é um feito com diferentes aspectos. «O Papa João Paulo II distinguia uma “globalização da solidariedade” da “globalização da marginalização”, a primeira aplicada por aqueles que cuidam do verdadeiro bem de todos os seres humanos, a segunda condicionada pelo interesse egoísta de indivíduos e grupos», sustenta Zen. É esta segunda forma de globalização, na qual a China desempenha um papel crucial, o alvo das suas críticas.           

Embora a globalização, como fenómeno, tenha sido inicialmente recebida com entusiasmo, o prelado assegura que «os seus resultados reais foram muito decepcionantes». Para o cardeal, «os países pobres não sentem que tenham tido alguma ajuda da economia globalizada do planeta», já que quem administra esta globalização são «os ricos e os fortes», fazendo menção directa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional.     

Este tipo de instituições supranacionais, lamenta Zen, «acabam por ajudar os governos dos países pobres, os ricos e poderosos desses países, e não os pobres, porque os pobres dos países pobres não foram convidados a participar activamente no processo».      

Continuando, Sua Eminência referiu-se à perseguição que sofrem os católicos na China e ao pacto secreto assinado pelo Vaticano com a administração comunista. A China, diz Zen, oferece hoje a imagem de um país rico, mas, «num regime totalitário, as pessoas contribuem para a riqueza da nação sem obterem uma parte justa da sua prosperidade. Na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista». E aos escravos, acrescenta Zen, «não se lhes permite o luxo da dignidade».           

Carlos Esteban 

Através de InfoVaticana