quinta-feira, 2 de julho de 2020

Família vai à luta!



O Dies Iræ recebeu, através de um prezado leitor, um pedido de divulgação de mais uma situação que confirma a aberrante agenda ideológica promovida nas escolas portuguesas. Aproveita-se a ocasião para fazer um apelo a que sejam oferecidas orações e sacrifícios para que esta situação conheça o seu fim o mais rapidamente possível.

Família é obrigada a ir à luta contra a prepotência do Estado, através do Governo (PS) acompanhado dos seus servidores (directores das escolas), na tentativa de expropriar aos pais a educação dos seus filhos.

Como é de todos sabido, no ano lectivo 2018/2019, foi introduzida uma nova disciplina no ensino em Portugal, “Cidadania e Desenvolvimento”, com conteúdos de mera promoção ideológica.

Uma família, no exercício das suas competências e liberdades, logo no início do ano lectivo 2018/2019, informou a escola e o próprio Sr. Ministro da Educação, bem como o Sr. Primeiro Ministro, e o Sr. Presidente da República, de que não autorizava que os seus filhos participassem na referida disciplina, num acto de pura resistência pacífica à tentativa de imposição, como curricular, de uma disciplina, que invade o espaço educativo que pertence aos pais.

Imagine-se que foi ditada a sentença, primeiro, por Despacho do Sr. Secretário de Estado da Educação, Doutor João Costa (Fevereiro 2020) e, muito recentemente, por Despacho do Sr. Director da Escola [1], anulando a decisão do Conselho de Turma(!) referente ao ano lectivo 2018/2019. A anulação da decisão do Conselho de Turma visa reter dois dos filhos daquela família no ano que frequentavam naquele ano lectivo, e que aí fiquem retidos até que os pais se dignem autorizar a participação nas referidas aulas!

O caso vai acabar em tribunal.


[1] A título de curiosidade, é bom saber-se que estamos a falar tão somente de uma família que deu 6 alunos àquele Agrupamento de Escolas, e que todos eles, em todos os anos que frequentaram aquele Agrupamento, foram distinguidos no Quadro de Excelência, ou reuniam condições para isso, além de terem um registo exemplar enquanto alunos/cidadãos e estarem sempre disponíveis para representar a Escola em diversas actividades tais como: concertos, concursos de matemática, leitura, biologia, química, etc.

As incógnitas do fim de um pontificado



A renúncia de Bento XVI será lembrada como um dos acontecimentos mais catastróficos do nosso século, porque abriu a porta não apenas a um pontificado desastroso, mas, sobretudo, a uma situação de crescente caos na Igreja. Mais de sete anos após o infeliz 11 de Fevereiro de 2013, a vida de Bento XVI e o pontificado do Papa Francisco estão inexoravelmente a chegar ao fim. Não sabemos qual dos dois acontecimentos precederá o outro, mas, em ambos os casos, a “fumaça de Satanás” corre o risco de envolver o Corpo Místico de Cristo, como talvez nunca tenha acontecido na história.

O pontificado bergogliano chegou ao fim, se não do ponto de vista cronológico, certamente do ponto de vista do seu impacto revolucionário. O Sínodo da Amazónia fracassou e a Exortação Querida Amazónia, de 2 de Fevereiro, foi a pedra tumular de tantas esperanças do mundo progressista, especialmente da área alemã. O Coronavírus, ou COVID-19, pôs definitivamente fim aos ambiciosos projectos pontifícios para 2020, dando-nos a imagem histórica de um Papa solitário e derrotado, imerso no vazio de uma espectral Praça de São Pedro. Por outro lado, a Divina Providência, que regula sempre todos os acontecimentos humanos, permitiu que Bento XVI assistisse ao colapso após a sua renúncia. Mas, provavelmente, o pior ainda está por vir.

Era lógico prever que, com a convivência de “dois Papas” no Vaticano, uma parte do mundo conservador, desgostoso de Francisco, voltaria o olhar para Bento, considerando-o o “verdadeiro Papa”, em oposição ao “falso profeta”. Embora convencidos dos erros do Papa Francisco, esses conservadores não quiseram seguir o caminho iniciado pela Correctio filialis entregue ao Papa Francisco a 11 de Agosto de 2016. A verdadeira razão da sua relutância está, provavelmente, no facto de que a Correctio destaca como a raiz dos desvios bergoglianos remonta aos pontificados de Bento XVI e de João Paulo II e, antes ainda, ao Concílio Vaticano II. Para muitos conservadores, por outro lado, a hermenêutica da continuidade de João Paulo II e de Bento XVI não admite fracturas e, como o pontificado bergogliano parece representar a negação desta hermenêutica, a única solução para resolver o problema é eliminar Francisco do horizonte.

O próprio Bento, dando a si mesmo o título de Papa emérito, continuando a vestir de branco e a conceder a bênção apostólica, teve gestos que parecem encorajar essa impérvia obra de substituição do novo Papa pelo antigo. O argumento princeps é, porém, a distinção entre munus e ministerium, com a qual Bento parecia querer conservar para si uma espécie de pontificado místico, deixando a Francisco o exercício do governo. A origem da tese remonta a um discurso de Mons. Georg Gänswein, de 20 de Maio de 2016, na Pontifícia Universidade Gregoriana, na qual afirmava que o Papa Bento não havia abandonado o seu ministério, mas tinha-lhe dado uma nova dimensão colegial, tornando-o um ministério quase-partilhado («als einen quasi gemeinsamen Dienst»). De nada adianta que Mons. Georg Gänswein, num comunicado ao LifeSiteNews, a 14 de Fevereiro de 2019, tenha reafirmado a validade da renúncia ao ministério petrino de Bento XVI, afirmando que «existe apenas um Papa legitimamente eleito, e é Francisco». A ideia de uma possível redefinição do múnus petrino já tinha sido lançada. E diante da objecção de que o Papado é uno e indivisível e não pode tolerar divisões no seu interior, a réplica desses conservadores é que é precisamente esse facto que comprova a invalidade da renúncia de Bento XVI. A intenção de Bento – dizem eles – era a de conservar o pontificado, supondo que o ministério pudesse dividir-se em dois; mas isto é um erro substancial, porque a natureza monárquica e unitária do Papado é de direito divino. A renúncia de Bento XVI seria, portanto, inválida.

É fácil argumentar que, se fosse provado que Bento XVI tinha a intenção de dividir o pontificado, mudando a constituição da Igreja, teria caído em heresia; e como esta concepção herética do Papado seria, certamente, anterior à sua eleição, a eleição de Bento XVI deveria ser considerada inválida pelo mesmo motivo pelo qual é considerada inválida a renúncia. Em nenhum caso seria ele o Papa. Mas estes são discursos abstractos, porque só Deus julga as intenções, enquanto que o direito canónico se limita a avaliar o comportamento externo dos baptizados. Uma célebre sentença do direito romano, recordada pelo Cardeal Walter Brandmüller e pelo Cardeal Raymond Leo Burke, afirma que «De internis non iudicat praetor»; um juiz não julga as coisas internas. Por outro lado, o cânone 1526, § 1 do novo Código de Direito Canónico recorda que: «Onus probandi incumbit ei qui asserit» (o ônus de fornecer as provas cabe a quem assevera). Há uma diferença entre indício e prova. O indício sugere a possibilidade de um facto, a prova demonstra a certeza. A regra de Agatha Christie, segundo a qual três indícios são uma prova, vale para a literatura, mas não para os tribunais civis ou eclesiásticos.       

Além disso, se o legítimo Papa fosse Bento XVI, o que aconteceria se ele, de um dia para o outro, morresse ou se, em vez disso, antes da sua morte morresse o Papa Francisco? Visto que muitos dos actuais purpurados foram criados pelo Papa Francisco e nenhum dos cardeais eleitores o considera um antipapa, a sucessão apostólica seria interrompida, prejudicando a visibilidade da Igreja. O paradoxo é que, para provar a invalidade da renúncia de Bento, se utilizam sofismas jurídicos, mas, depois, para resolver o problema da sucessão de Bento ou de Francisco, dever-se-ia recorrer a soluções extra-canónicas. A tese do visionário franciscano Jean de Roquetaillade (João de Rupescissa: 1310-1365), segundo a qual, na iminência do fim dos tempos, apareceria um “Papa angélico” à cabeça de uma Igreja invisível, é um mito espalhado por muitos pseudo-profetas, mas nunca aceite pela Igreja. Seria este o caminho que uma parte do mundo conservador tomaria? Parece mais lógico acreditar que os cardeais reunidos em conclave para eleger um novo Papa, depois da morte ou da renúncia ao pontificado do Papa Francisco, seriam assistidos pelo Espírito Santo. E, se é verdade que os cardeais poderiam rejeitar a influência divina, elegendo um Pontífice pior que o Papa Francisco, é também verdade que a Providência poderia reservar surpresas inesperadas, como foi para a eleição de Pio X ou de outros grandes Papas na história.

Aquilo de que precisamos é de um Papa santo e, antes ainda, de um próximo Papa. Com o título The Next Pope, saiu por estes dias um óptimo livro do jornalista inglês Edward Pentin, publicado pelo Sophia Institute Press (The Next Pope: The Leading Cardinal Candidates). O principal mérito desta obra de 700 páginas é lembrar-nos de que haverá um “próximo Papa” e oferecer-nos, através dos perfis de 19 “papáveis”, todas as informações necessárias para entrar na era pós-franciscana.

É necessário convencermo-nos de que a hermenêutica da continuidade fracassou, porque estamos a atravessar uma crise na qual nos devemos medir sobre os factos e não sobre as suas interpretações. «A inaceitabilidade desta abordagem – observa correctamente Peter Kwasniewskié demonstrada, entre outras coisas, pelo sucesso infinitesimal que os conservadores tiveram em derrubar as “reformas” desastrosas, as tendências, os hábitos e as instituições estabelecidas na esteira e em nome do último Concílio, com a aprovação ou a tolerância papal».

O Papa Francisco nunca teorizou a hermenêutica da “descontinuidade”, mas quis realizar o Vaticano II na práxis e a única resposta vencedora a esta práxis reside na realidade concreta dos factos teológicos, litúrgicos, canónicos e morais, e não num estéril debate hermenêutico. A este respeito, o verdadeiro problema não será a continuidade ou a descontinuidade do próximo Pontífice com o Papa Francisco, mas a sua relação com o nó histórico do Concílio Vaticano II. Alguns conservadores querem eliminar o Papa Francisco através de sofismas canónicos, em nome da hermenêutica da continuidade. Mas se é possível acusar um Papa pela sua descontinuidade com o seu antecessor, por que não admitir a possibilidade da descontinuidade de um Concílio com os precedentes? Neste contexto, devem ser apreciadas as recentes intervenções sobre o Vaticano II do Arcebispo Carlo Maria Viganò e do Bispo Auxiliar de Astana, Athanasius Schneider, que tiveram a coragem de enfrentar um debate teológico e cultural que não se pode evitar. Este trabalho de revisão histórica e teológica do Vaticano II é necessário para dissipar as sombras que se adensam no fim do pontificado e também para evitar uma divisão que poderia colocar os bons católicos diante da escolha entre um Papa mau, mas legítimo, e um antipapa de melhor doutrina, ou “místico”, mas, infelizmente, ilegítimo.  

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

quarta-feira, 1 de julho de 2020

«Quantas palavras fátuas nos foram ditas», diz Mons. Viganò a Mons. Negri



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, a carta que Sua Excelência Reverendíssima recebeu de Monsenhor Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio, assim como a resposta que lhe foi dirigida.

Milão, 16 de Junho de 2020

Excelência Caríssima,     

Como as circunstâncias da vida tendem a indicar-nos elementos de degradação, tanto na vida eclesial quanto na social, gostaria de lhe comunicar a minha adesão à sua mensagem que me parece ter reunido o coração vivo da nossa experiência eclesial. Este coração vivo da experiência eclesial é cada vez mais caracterizado pela consciência quotidiana de que o tempo que nos é dado foge e que a nossa existência permanece fortemente condicionada pela natureza temporária dos acontecimentos e dos factos.   

Parece-me que a Igreja, aos poucos, segundo um ritmo muitas vezes momentâneo, esteja a recuperar a consciência da sua própria identidade e o trabalho missionário que caracteriza a sua vida e a sua história.

Sentimos, a cada dia, mais viva a pressão dos acontecimentos que pedem para serem julgados de acordo com a clareza da palavra do Senhor e vividos como obediência à Sua vontade. Estamos felizes com tudo isso, estamos felizes porque nos abandonamos ao Senhor todos os dias com a profunda consciência de que a Sua presença nos sustenta em todos os momentos e que não há possibilidade de que a nossa existência seja privada da companhia do Senhor Jesus Cristo.  A nossa força é verdadeiramente o abandono da nossa vida à Sua vontade e, sobretudo, o desejo de que a nossa vida experimente a grande vibração da missão; que a nossa vida olhe para o futuro como uma realidade a ser investida a cada momento da consciência da presença de Cristo, pedindo que essa presença de Cristo percorra, a cada dia, a aventura da missão. Nisto e para isto, a nossa vida abre-se a cada manhã com um grande desejo de sustentar a nossa vida cristã e a dos nossos irmãos; fecha-se todas as noites com a consciência de ter contribuído pobremente, mas sempre sinceramente, para o amadurecimento da consciência cristã no mundo.   

Apegámo-nos a si, Excelência, e gostaríamos de poder acompanhar, como últimos discípulos, os seus passos no caminho da verdade, da beleza e do bem. O Senhor faça da sua presença na Igreja e entre os homens uma presença cheia de verdade, de capacidade de sacrifício e de vontade de bem para com todos os homens; assim, parece-nos corresponder de maneira pobre, mas real, ao grande convite da liturgia de cada momento, o de não perder o tempo, mas de devolvê-lo, todos os dias, com total vontade e com grande abertura, ao próprio coração de Deus, porque na vida de cada dia somos precisamente chamados a experimentar a grandeza de Deus e o desejo de contribuir de alguma maneira, mas realmente, para a criação do Reino de Deus no mundo.   

O Senhor nos abençoe e nos conforte no caminho de cada dia.            

† Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio      

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17 de Junho de 2020

Excelência Reverendíssima,      

Li com grande comoção as suas palavras, para mim verdadeiramente tocantes. É uma consolação ver que Vossa Excelência alcançou, com a perspicácia e a lucidez que sempre caracterizaram o seu juízo, o coração do problema.         

O tempo presente, especialmente para quem tem um olhar sobrenatural, leva-nos de volta às coisas básicas da vida, à simplicidade do Bem e ao horror do Mal, à necessidade de escolher o alinhamento para combater as nossas pequenas e grandes batalhas quotidianas. Há quem veja nisto uma banalização, como se a clareza do Evangelho fosse incapaz de dar respostas abrangentes a uma humanidade complexa e articulada; no entanto, enquanto alguns dos nossos irmãos Bispos se preocupam quase obsessivamente com a inclusão e a green theology, augurando a Nova Ordem Mundial e uma Casa comum para as religiões abraâmicas, vai fazendo caminho, no povo e nos sacerdotes, a persuasão de um afastamento dos próprios Pastores – felizmente, não todos – exactamente no momento do confronto épico.          

É verdade: o tempo foge-nos da mão, Excelência, e com ele desmoronam-se os castelos de areia da retórica quase iniciante daqueles que, na provisoriedade e na fragilidade do contingente, queriam construir o seu sucesso. Há algo de inexorável naquilo que acontece hoje: as miragens efêmeras que deveriam ter substituído as verdades eternas aparecem-nos, à dura luz da realidade, nos seus artefactos e falsas misérias, na sua ontológica e inexorável falsidade. Descobrimo-nos crianças, segundo as palavras de Nosso Senhor: reconhecemos quase instintivamente os bons e os maus, a recompensa e o castigo, o mérito e a culpa. Mas pode-se considerar banal a serenidade da criança que repousa no peito da mãe, a confiança orgulhosa da criança que se apega à mão do pai?             

Quantas palavras fátuas nos foram ditas, quantos paliativos inúteis nos foram dados, pensando que a Palavra eterna do Pai fosse inadequada, que era necessário actualizá-la para torná-la mais sedutora para os ouvidos surdos do mundo! E, no entanto, teria sido suficiente fazê-la nossa, aquela Palavra, para não precisar de mais nada. Se até agora nos deixamos confundir pelo rugido do século, agora podemos abandonar-nos com confiança filial e deixar-nos guiar, porque reconhecemos a voz do divino Pastor e seguimo-Lo para onde Ele nos quer conduzir. Mesmo quando outros, que também deveriam falar, ficam calados.      

A nossa pobreza não é um obstáculo, mas sim uma ajuda nestas situações: quanto mais humildes formos, mais brilhará a maestria do Artista, que nos empunhará como um instrumento nas Suas hábeis mãos, como a caneta com a qual o Escrivão escreve sabiamente a página.     

Peço a Vossa Excelência que reze para que todos nós, que na plenitude do Sacerdócio o Senhor chama não servos, mas amigos, consigamos tornar-nos instrumentos dóceis da Sua Graça, redescobrindo a simplicidade divina da Fé que Ele nos ordenou de pregar a todos os povos. Tudo o que, por orgulho, adicionarmos é um penoso falso brilho do qual devemos aprender a livrar-nos desde já, se não quisermos que o façam as chamas do Purgatório, nas quais as nossos poucas palhetas de ouro serão purificadas da escória para nos tornar dignos da visão beatífica. Não desperdicemos os dias preciosos em que a doença e a velhice nos dão a oportunidade de expiar as nossas e as culpas dos outros: são dias abençoados que podemos oferecer à Majestade de Deus pela Igreja e pelos seus Ministros.        

Receba, Excelência Caríssima, a expressão da minha profunda gratidão pelas suas inspiradas palavras, com a certeza da minha recordação no Santo Sacrifício do Altar. E reze por mim.    

Nunc dimittis servum Tuum,  
Domine, secundum verbum Tuum in pace…         

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo

Médicos austríacos defendem a Comunhão na boca



Vinte e um médicos católicos austríacos escreveram uma carta que dirige um apelo à Conferência Episcopal nacional para que seja revogada a proibição de receber a Sagrada Comunhão na boca, proibição aplicada desde que foi anunciado que a Comunhão na mão seria a única forma permitida para a distribuição da hóstia consagrada.   

Enquanto que as medidas de bloqueio determinadas pelo COVID-19 são gradualmente revogadas em toda a Europa e as Missas são reabertas ao povo, várias Conferências Episcopais, em países como a Itália e a Áustria, decidiram obrigar os sacerdotes a distribuir a Sagrada Comunhão apenas na mão, embora a Comunhão de joelhos e na boca seja a prática tradicional da Igreja Católica.  

Para os católicos de mentalidade tradicional, esta obrigação é equivalente a uma total proibição de receberem a Comunhão. Para estes, são inaceitáveis o desrespeito e o risco de profanação.

Os vinte e um médicos católicos austríacos que assinaram a carta citaram, a sustentar, a opinião profissional do professor Filippo Maria Boscia, Presidente da Associação dos Médicos Católicos Italianos, que declarou: «A Comunhão na boca é mais segura do que na mão».      

Segundo os médicos subscritores, na liturgia católica tradicional – ou seja, o rito tridentino – as medidas preventivas para impedir a disseminação do coronavírus estão mais amplamente presentes do que no Novus Ordo, como quando o padre é obrigado a manter o polegar e o indicador unidos a partir do momento em que consagrou o pão, usando-os apenas para tocar a hóstia, daquele momento em diante, até ao momento em que, mais uma vez, purifica as mãos.

Os médicos comentaram que «os sacerdotes que celebram o rito tradicional têm experiência na administração da Comunhão na boca e praticamente nunca têm contacto com a boca de quem comunga. Todavia, se tal acontecesse, um sacerdote, tendo em conta a situação actual, pode interromper a distribuição da Comunhão para limpar as mãos».    

Os médicos observaram que, quando os fiéis se ajoelham para receber a Comunhão, a contaminação por gotículas é menos provável porque o rosto do sacerdote não está ao mesmo nível que o do fiel que comunga.        

«Do ponto de vista higiénico, é absolutamente incompreensível para nós o motivo pelo qual a Comunhão na boca foi proibida na Áustria. Consideramos esta forma de distribuição mais segura do que a Comunhão na mão», escrevem os médicos, sublinhando que as contaminações são, na maior parte, resultado de mãos sujas, como escreveu o Dr. Boscia quando enfatizou: «O que é certo é que as mãos são as partes do corpo mais expostas aos patógenos».           

Os médicos católicos austríacos concluem a carta recordando que a Congregação para o Culto Divino reconheceu o direito dos fiéis de receberem a Comunhão na boca, sem excepções.       

Jeanne Smits     

Através de Aldo Maria Valli      

terça-feira, 30 de junho de 2020

A Vós, Senhor, eu me confio!



Não desagrada a Deus que, por vezes, vos queixeis suavemente a Ele. Não temais dizer-Lhe: «Porque Vos retirastes para longe, Senhor? (cf Sl 9, 22, LXX) Bem sabeis que Vos amo e que a nada mais aspiro que ao vosso amor. Por caridade, socorrei-me e não me abandoneis».

Se a desolação se prolongar e a vossa angústia se extremar, uni a vossa voz à de Jesus, desse Jesus que morre  na cruz, e dizei, implorando a piedade divina: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» (Mt 27, 46). Mas aproveitai esta prova, primeiro para mais vos abaixardes, sabendo que quem ofendeu a Deus não merece consolações; e depois, para avivar ainda mais a vossa confiança, recordai que Deus tem sempre em vista o vosso bem em tudo quanto faz ou permite, e que, por isso, todas as coisas cooperam para o bem (cf Rom 8, 28) da vossa alma. Quanto mais vos sentirdes esmagado pela dor e o desânimo, mais deveis armar-vos de grande coragem e exclamar: «O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?» (Sl 26, 1). Sim, Senhor, sois Vós que me iluminais e sereis Vós a salvar-me; confio-me a Vós, «em Vós deposito a minha esperança, não serei confundido para sempre» (Sl 30, 2, LXX).

Deste modo, estabelecei-vos na paz, ciente de que «ninguém esperou no Senhor e foi confundido» (Si 2, 11, Vulg), ninguém se perdeu depois de ter depositado a sua confiança em Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório, in Maneira de conversar com Deus    

segunda-feira, 29 de junho de 2020

«A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus» – Viganò



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista que Mons. Viganò concedeu a Phil Lawler.

Phil Lawler: Em primeiro lugar, qual é sua opinião sobre o Vaticano II? Que, desde então, as coisas se deterioraram rapidamente é certamente verdade; mas se todo o Concílio é um problema, como é que tal pôde acontecer? Como se concilia essa posição com o que acreditamos na inerrância do Magistério? Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados? Mesmo que apenas algumas partes do Concílio (por exemplo, Nostra Aetate, Dignitatis Humanae) são problemáticas, devemos colocar as mesmas questões. Muitos de nós afirmam há anos que o “espírito do Vaticano II” está errado. Vossa Excelência diz agora que esse falso “espírito” liberal reflecte exactamente o próprio Concílio?

Monsenhor Viganò:
Que o Concílio representa um problema, creio que não seja necessário demonstrá-lo: o simples facto de nos questionarmos sobre o Vaticano II e não sobre o Tridentino ou o Vaticano I, parece-me confirmar um dado evidente reconhecido por todos. Na realidade, mesmo aqueles que defendem cegamente o Concílio fazem-no prescindindo de todos os outros Concílios Ecuménicos, dos quais nem sequer um foi definido como concílio pastoral. E note-se: chamam-lhe o Concílio por excelência, quase como se fosse o único de toda a história da Igreja ou, pelo menos, considerando-o um unicum tanto para a formulação da sua doutrina quanto para a autoridade do seu magistério. Uma reunião que, diferentemente das que a precederam, se define precisamente como pastoral e declara que não deseja propor nenhuma nova doutrina, mas que, de facto, cria uma discriminação entre antes e depois, entre Concílio dogmático e Concílio pastoral, entre cânones inequívocos e vãos, entre anathema sit e piscadelas de olhos com o mundo.

Nesse sentido, acredito que o problema da infalibilidade do Magistério – (a inerrância que mencionou diz respeito às Sagradas Escrituras) – nem sequer se coloque, porque o Legislador, ou seja, o Romano Pontífice, em torno do Concílio que convocou, declarou solene e claramente que não queria usar a autoridade doutrinária que, querendo, poderia usar. Gostaria de salientar que nada é mais pastoral do que o proposto como dogmático, uma vez que o exercício do munus docendi na sua forma mais alta coincide com a ordem que o Senhor deu a Pedro de apascentar as Suas ovelhas e os Seus cordeiros. No entanto, essa oposição entre dogmático e pastoral foi feita precisamente por quem, no discurso de abertura do Concílio, quis dar uma severa acepção ao dogma e um significado mais suave, mais conciliador, à pastoral. Também encontramos a mesma abordagem nas intervenções de Bergoglio, onde ele identifica na pastoral uma versão soft do rígido ensinamento católico em matéria de Fé e de Moral, em nome do discernimento. É doloroso reconhecer que o recurso a um léxico equívoco, ou a termos católicos compreendidos em sentido impróprio, entrou na Igreja a partir do Vaticano II, que da leviandade – ou seja, da ambiguidade, a desejada imprecisão da linguagem – é o primeiro e mais emblemático exemplo. Tal aconteceu porque o Aggiornamento, termo também esse ambíguo e ideologicamente seguido pelo Concílio como um absoluto, colocara como principal prioridade o diálogo com o mundo.

Há um outro equívoco que deve ser esclarecido. Se, por um lado, João XXIII e Paulo VI declararam que não queriam comprometer o Concílio na definição de novas doutrinas e queriam que se limitasse a ser apenas pastoral, por outro lado é verdade que externamente – mediaticamente, dir-se-ia hoje – a ênfase dada aos seus actos foi enorme. Serviu para transmitir a ideia de uma presunta autoridade doutrinária, de uma implícita infalibilidade magisterial, que tinham sido claramente excluídas desde o início. Se tal aconteceu, foi para consentir que as suas instâncias, mais ou menos heterodoxas, fossem compreendidas como autorizadas e, portanto, acolhidas pelo clero e pelos fiéis. Mas seria suficiente para desacreditar os autores de tal engano, que ainda hoje se insurgem se se toca na Nostra Aetate, enquanto se calam diante daqueles que negam a divindade de Nosso Senhor ou a virgindade perpétua de Maria Santíssima. Lembremos que o Católico não adora um Concílio, nem o Vaticano II nem o Tridentino, mas a Santíssima Trindade, único Deus verdadeiro; não venera uma declaração conciliar ou uma exortação pós-sinodal, mas a Verdade que esses actos do magistério transmitem.

Pergunta-me: “Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados?”. Respondo-lhe com base na minha experiência daqueles anos e nas palavras dos Irmãos com quem me confrontei. Ninguém poderia imaginar que, dentro do corpo eclesial, houvesse forças hostis tão poderosas e organizadas que pudessem rejeitar os esquemas preparatórios, perfeitamente ortodoxos, preparados pelos Cardeais e Prelados de segura fidelidade à Igreja, substituindo-os por um conjunto de erros habilmente dissimulados por trás de discursos extensos e deliberadamente equívocos. Ninguém poderia acreditar que, sob as abóbadas da Basílica Vaticana, se pudessem convocar os estados gerais que decretariam a abdicação da Igreja Católica e a instauração da Revolução (como recordei num escrito precedente, o Cardeal Suenens definiu o Vaticano II o 1789 da Igreja!). Os Padres Conciliares foram objecto de um clamoroso engano, de uma fraude habilmente perpetrada com o recurso aos meios mais subtis: encontraram-se em minoria nos grupos linguísticos, excluídos das reuniões convocadas ao último momento, pressionados a dar o seu placet fazendo-os acreditar que assim o queria o Santo Padre. E aquilo que os inovadores não conseguiam obter na Aula Conciliar, conseguiam-no nas Comissões e nos Conselhos, graças também ao activismo de teólogos e peritos acreditados e aclamados por uma poderosa máquina mediática. Há uma enorme quantidade de estudos e documentos que testemunham esta sistemática mens maliciosa, por um lado, e o optimismo ingénuo ou o descuido dos bons, por outro. A actividade do Coetus Internationalis Patrum poderia ter feito pouco ou nada quando as violações do regulamento por parte dos progressistas eram ratificadas na Sagrada Mesa.

Aqueles que alegaram que o “espírito do Concílio” representava uma interpretação heterodoxa do Vaticano II realizaram uma operação inútil e prejudicial, mesmo se ao fazê-lo eram movidos pela boa fé. É compreensível, para um Cardeal ou um Bispo, o querer defender a honra da Igreja e tentar não desacreditá-la diante dos fiéis e do mundo: pensava-se que o que os progressistas atribuíam ao Concílio fosse, na verdade, uma deturpação indevida, uma violação arbitrária. Mas se à época poderia ser difícil pensar que a liberdade religiosa condenada, por Pio XI, na Mortalium Animos pudesse ser afirmada pela Dignitatis humanae, ou que o Romano Pontífice pudesse ver usurpada a própria autoridade por um fantasmagórico Colégio Episcopal, hoje compreendemos que aquilo que no Vaticano II era habilmente dissimulado hoje é afirmado ore rotundo nos documentos papais, precisamente em nome da aplicação coerente do Concílio.

Por outro lado, quando se fala comumente do espírito de um evento, entende-se exactamente o que desse evento constitui precisamente a alma, a essência. Podemos, portanto, afirmar que o espírito do Concílio é o próprio Concílio, que os erros do pós- concílio estão contidos in nuce nos Actos Conciliares, exactamente como se diz com razão que o Novus Ordo é a Missa do Concílio, mesmo se, na presença dos Padres, se celebrava a Missa que os progressistas chamam de significativamente pré-conciliar. E, uma vez mais: se o Vaticano II realmente não representasse um ponto de ruptura, por que motivo falamos de Igreja pré-conciliar e de Igreja pós-conciliar, como se fossem duas entidades diferentes, definidas, na sua essência, precisamente pelo Concílio? E se o Concílio estivesse realmente alinhado com o Magistério ininterrupto e infalível da Igreja, porquê que é o único que apresenta graves e muito sérios problemas de interpretação, demonstrando a própria heterogeneidade ontológica em relação aos outros Concílios?

Na sua opinião, qual é a solução? Mons. Schneider sugere que um futuro Pontífice deva repudiar os erros; Vossa Excelência considera esta proposta inadequada. Mas, então, como se podem corrigir os erros, de modo a manter a autoridade do magistério de ensinar?

A solução, na minha opinião, está, acima de tudo, num acto de humildade que todos nós, a começar pela Hierarquia e pelo Papa, devemos realizar: reconhecer a infiltração do inimigo no seio da Igreja, a ocupação sistemática dos principais postos-chave da Cúria Romana, dos Seminários e das Universidades, a conspiração de um grupo de rebeldes – incluindo, na linha da frente, a desviada Companhia de Jesus – que conseguiram dar a aparência de legitimidade e de legalidade a um acto subversivo e revolucionário. Devemos também reconhecer a inadequação da resposta dos bons, a ingenuidade de muitos, o temor de outros, o interesse daqueles que, graças a essa conspiração, tiraram alguma vantagem.   

Antes da tripla negação de Cristo no pátio do sumo sacerdote, Pedro “flevit amare”, chorou amargamente. A tradição diz-nos que o Príncipe dos Apóstolos tinha dois sulcos na face por causa das lágrimas que derramou copiosamente durante o resto dos seus dias, arrependido da sua traição. Caberá a um seu Sucessor, ao Vigário de Cristo, na plenitude do seu poder apostólico, retomar o fio da Tradição onde foi cortado. Esta não será uma derrota, mas um acto de verdade, de humildade e de coragem. A autoridade e a infalibilidade do Sucessor do Príncipe dos Apóstolos emergirão intactas e reconfirmadas. De facto, essas não foram deliberadamente invocadas no Vaticano II, ao passo que o serão no dia em que um Pontífice tiver de corrigir os erros que aquela Assembleia permitiu, jogando sobre o equívoco de uma autoridade oficialmente negada, mas sub-repticiamente mostrada aos fiéis por toda a Hierarquia, a começar precisamente pelos Papas do Concílio.

Quero recordar que, para alguns, o acima exposto poderá parecer excessivo, porque colocaria em discussão a autoridade da Igreja e dos Romanos Pontífices. No entanto, nenhum escrúpulo impediu de violar a Bula Quo primum tempore, de São Pio V, abolindo, de um dia para o outro, toda a Liturgia Romana, o venerável tesouro milenar de doutrina e espiritualidade da Missa Tradicional, o imenso património do canto gregoriano e da música sacra, a beleza dos ritos e das vestes sacras, desfigurando a harmonia arquitectónica, inclusive de insignes basílicas, removendo balaustradas, altares monumentais e tabernáculos: tudo se sacrificou no altar do coram populo da renovação conciliar, com a agravante de o ter feito só porque aquela Liturgia era admiravelmente católica e incompatível com o espírito do Vaticano II.

A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus e a Ele voltar. Não está em jogo o prestígio de uma classe dirigente, nem a imagem de uma empresa ou de um partido: aqui trata-se da glória da Majestade de Deus, de não negar a Paixão de Nosso Senhor na Cruz, dos sofrimentos e dos tormentos de Sua Santíssima Mãe, do sangue dos Mártires, do testemunho dos Santos, da eterna salvação das almas. Se, por orgulho ou obstinação infeliz, não soubermos reconhecer o erro e o engano em que caímos, teremos que prestar contas a Deus, que é tão misericordioso com o seu povo quando se arrepende, como implacável na justiça quando segue Lúcifer no non serviam.

† Carlo Maria Viganò

domingo, 28 de junho de 2020

«Quem vos recebe, a Mim recebe»



«Quem acolher este menino em meu nome, é a Mim que acolhe», diz o Senhor (Lc 9, 48). Quanto mais pequeno for esse irmão que se acolhe, mais Cristo estará presente nele. Porque, quando recebemos uma pessoa importante, é muitas vezes por vã glória que o fazemos; mas aquele que recebe um pequenino, fá-lo com uma intenção pura e por Cristo. «Eu era peregrino e recolhestes-Me», disse o Senhor. E ainda: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 35.40). Tratando-se de um crente e de um irmão, por mais pequeno que seja, é Cristo que com ele entra. Abre, pois, a porta de tua casa e acolhe-O.   

«Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta». Portanto, aquele que receber a Cristo, receberá a recompensa da hospitalidade de Cristo. Não ponhas em causa estas palavras, confia nelas. Ele próprio no-lo disse: «Neles, sou Eu que apareço». E para que não duvides, o Senhor decreta um castigo para aqueles que não O receberem, e honras para os que O receberem (Mt 25, 31s); ora, não o faria se não fosse pessoalmente tocado pela honra ou pelo desprezo. «Acolheste-Me», diz, «em tua casa, Eu receber-te-ei no Reino de meu Pai. Libertaste-Me da fome, Eu te libertarei dos teus pecados. Visitaste-Me quando estava preso, Eu te farei conhecer a libertação. Acolheste-Me quando era estrangeiro, Eu farei de ti um cidadão dos Céus. Deste-Me pão, Eu te darei o Reino como herança e tua plena propriedade. Ajudaste-Me em segredo, Eu proclamá-lo-ei publicamente, chamando-te meu benfeitor e a Mim, teu devedor». 

São João Crisóstomo, in Homilias sobre os Actos dos Apóstolos, n.º 45; PG 60, 318

sábado, 27 de junho de 2020

«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa»



Que procuras? A felicidade. [...] Procuras uma coisa boa, mas que não existe neste mundo. [...] Tendo vindo até junto de nós, Cristo encontrou o que nós temos em abundância: penas, dores e a morte; é o que tens, e o que entre nós existe em abundância. Ele comeu contigo o que havia em abundância na pobre casa da tua infelicidade. Ele bebeu vinagre, ele provou fel (Jo 19, 29) – tudo quanto encontrou na tua pobre casa.

Mas convidou-te para a sua mesa magnífica, para a sua mesa do Céu, para a sua mesa dos Anjos, onde Ele mesmo é o pão (Jo 6, 34). Descendo até ti, e encontrando infelicidade na tua pobre casa, não desdenhou de Se sentar à tua mesa, tal como era, e prometeu-te a sua. [...] Assumiu a tua infelicidade, para te dar a sua felicidade. E dar-ta-á, pois prometeu-nos a sua vida.  

E aquilo que realizou é ainda mais incrível: deu-nos em penhor a sua própria morte. É como se nos tivesse dito: Convido-vos para a minha vida, onde ninguém morre, onde se encontra a verdadeira felicidade, onde o alimento não se corrompe, mas restaura, nunca falta e tudo preenche. Vede para onde vos convido: para a terra dos Anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para uma refeição eterna, para a minha amizade fraterna. Enfim, convido-vos para Mim mesmo, convido-vos para a minha própria vida. Duvidais de que vos darei a minha vida? Tendes a minha morte como testemunho.   

Santo Agostinho, in Sermão 231

sexta-feira, 26 de junho de 2020

«Quero, fica purificado»



Tal como o agir, também o sofrimento [sob todas as suas formas] faz parte da existência humana. Este deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, da súmula de erros que se acumularam ao longo da história e que ainda hoje não cessa de aumentar.

É preciso, obviamente, fazer tudo o que é possível para atenuar o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Tudo isto são deveres, tanto de justiça como de amor, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de todas as vidas verdadeiramente humanas. Na luta contra a dor física, conseguiram-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes e também os sofrimentos psíquicos aumentaram no decurso destas últimas décadas.   

Sim, devemos fazer tudo para superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo não está nas nossas possibilidades humanas, simplesmente porque não podemos ultrapassar a nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, do erro, que – como constatámos – é uma fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que entra pessoalmente na História tornando-Se homem e sofrendo nela. Nós sabemos que este Deus existe e que, por isso, este poder que «tira os pecados do mundo» (Jo 1, 29) está presente no mundo. Pela fé na existência deste poder, surgiu na História a esperança da cura do mundo.     

Bento XVI, in Encíclica Spe Salvi, 36

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Viver assentes na rocha da fé


O justo, ou seja, aquele que, no Baptismo, se revestiu do homem novo, criado na justiça, vive, enquanto justo, da fé, da luz que lhe confere o sacramento da iluminação. Quanto mais vive da fé, mais vive uma verdadeira vida sobrenatural, mais realiza em si a perfeição da sua adopção divina. Reparai bem na expressão “ex fide”: o que quer ela dizer exactamente? Quer dizer que a fé deve estar na raiz de todos os nossos actos, de toda a nossa vida. Há almas que vivem “com fé”, “cum fide”; têm fé e não se pode negar que a pratiquem, mas só se recordam eficazmente da sua fé em determinadas ocasiões [...].

Quando, porém, a fé é viva, forte e ardente, quando vivemos de fé, ou seja, quando nos orientamos em tudo pelos princípios da fé, quando a fé se encontra na raiz de todas as nossas acções e é o princípio interior de toda a nossa actividade, nessa altura, tornamo-nos fortes e estáveis, a despeito de todas as dificuldades, contrariedades e tentações que possamos sentir. E porquê? Porque, pela fé, julgamos todas as coisas como Deus as vê, as julga e as avalia, participando da infalibilidade, da imutabilidade e da estabilidade divinas.

É precisamente isso que Nosso Senhor nos diz: «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática», ou seja, que vive da fé, «é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque», acrescenta Jesus, «estava fundada sobre a rocha».

Beato Columba Marmion, in A nossa fé, vitória sobre o mundo